Jennifer Silva estreia na Seleção principal com ouro em Santa Fé 2026 ao lado de referência olímpica
Com Beatriz Tavares ao seu lado, jovem de 20 anos conquista primeiro ouro do remo em Jogos Sul-americanos desde Fabiana Beltrame em 2014

Jennifer da Silva Almeida vive um momento especial na carreira ao lado de Beatriz Tavares nos Jogos Sul-americanos. Em sua primeira competição pela Seleção Brasileira na categoria adulta, a remadora do Flamengo foi medalhista de ouro no double skiff feminino, ao lado de Bia, experiente atleta olímpica de 31 anos que, com o passar do tempo, também assumiu o papel de mentora das atletas mais jovens. Na manhã desta quinta-feira, a parceria recém-formada abriu boa vantagem nos metros finais para vencer em Santa Fé 2026, quebrando um jejum de 12 anos sem ouro para o remo feminino.
“Foi muita raça. A gente olhou para o lado, viu que dava, e uma acreditou na outra. Em double, ou qualquer barco de conjunto, a confiança é importante e eu confiava muito na Bia e acredito que a Bia também confiava muito em mim. Isso faz muita diferença”, declarou Jennifer ao final da prova. “Sei que ela é a pessoa que vai estar comigo do início ao final, independente se estiver em primeiro ou em último”, acrescentou a nova campeã sul-americana.
As brasileiras completaram o percurso em 6min45s36, contra 6min46s73 das chilenas Christina e Victoria Hostetter. Nicole Martinez e Alejandra Alonso, do Paraguai, ficaram com o bronze.
É a segunda medalha das duas nos Jogos Sul-americanos. Ontem, elas fizeram parte do oito com, embarcação que disputou o título com o Chile até os últimos metros e foi prata. Jennifer terá seu último compromisso na Costanera Este na prova do quatro sem, nesta sexta-feira. A jovem atleta fez questão de reconhecer a experiência da companheira na estratégia durante os dois mil metros de competição. “O diferencial foi a cabeça centrada que a Beatriz teve durante a prova. Ela sabia o que fazer a cada metro de prova, independente se a gente tivesse largado atrás ou na frente. Foram três largadas, e Bia sabia onde e quando atacar”.
Beatriz Tavares, prata nos Jogos Pan-americanos Santiago 2023 e atleta olímpica em Paris 2024 explicou melhor a estratégia adotada. “Foi especial. Foram muitos problemas na largada, inclusive queimamos uma. Estávamos na raia 1, que é muito difícil, tem muita marola. Mas na primeira largada eu consegui ver o que o nosso barco podia fazer e eu falei para Jennifer, ‘relaxa que na marca dos mil metros a gente vai começar’ e foi o que aconteceu”.
O remo feminino ainda conquistou mais uma medalha na manhã desta quinta-feira. Isabelle Falck foi prata no skiff individual peso leve, vencendo uma disputa acirrada contra Nicole Yarzon, do Uruguai, e completando o percurso em 7min43s36. O ouro foi para a chilena Antonia Liewald
Encontro de gerações e a esperança de um futuro promissor para o remo feminino

Beatriz Tavares construiu grande parte de sua trajetória no single skiff. Para ela, a temporada atual também representa uma reconstrução. A atleta conta que enfrentou mudanças e adaptações no início do ano, mas a resposta veio na água: no Mundial, repetiu o resultado do ano anterior ao alcançar novamente as semifinais do single skiff. “Eu cheguei aqui nesses Jogos Sul-americanos mais confiante pelo resultado expressivo que tive no Mundial”, relatou ainda durante os treinos.
A relação entre as duas traduz também um encontro de gerações. Enquanto Jennifer dá seus primeiros passos no alto nível adulto, Bia vive uma mudança de papel dentro da modalidade: de atleta mais jovem e aprendiz, passa a ser uma das referências para quem está chegando. Ela mesma foi inspirada em Fabiana Beltrame, que havia conquistado em 2014 o último ouro do remo feminino brasileiro em Jogos Sul-americanos.
“Antes eu era mais nova, mas o tempo vai passando e agora eu estou me tornando a mais velha. É muito especial poder estar reconstruindo uma história e sendo mais parceira das meninas mais novas, como foram para mim”, explica Bia. “Quando eu tinha 19 anos, eu remava com mulheres de 31, 32, a Fabiana (Beltrame) tinha essa idade. Eu brinco que tem um pessoal que é mais velho que eu e eu desejo vida longa a elas, para não ser a mais velha do grupo”, brincou Bia.
“Eu peguei várias gerações de remo feminino e quando vejo seleções femininas grandes em competições na Europa penso como isso é legal. E a gente está construindo, né? No remo, as coisas não acontecem da noite para o dia, demora. São anos de dedicação e renovação. Espero ainda poder ver um remo feminino mais forte com medalhas Pan-americanas em provas de conjunto, que ainda não temos. Estamos trabalhando para isso”, acrescentou Bia.
A responsabilidade, porém, vem acompanhada de cobrança. Bia admite que costuma “pegar no pé” das mais jovens e encara a experiência acumulada como uma oportunidade de contribuir para a formação da nova geração. “Eu tento sempre dar uma mão para as meninas mais novas, sendo que eu não sou fácil com elas. Eu pego no pé mesmo”, brinca.

Pela primeira vez, competindo juntas, Jennifer destacou o quão especial foi conseguir a vaga para esta embarcação. “Foi uma briga muito acirrada para fazer parte do double e eu estou muito feliz”, disse a caçula. “Claro que existe a pressão, porque querendo ou não, a Beatriz já é uma atleta olímpica. Existe a pressão, mas é muito gratificante dar um gás a mais, saber que tem uma pessoa tão boa remando ali com você. E não só como ela, mas como qualquer outra pessoa. Mas ter a Bia ali na minha proa é muito bom porque eu sei que se eu chamar ela vai estar ali presente”.
Feliz com o entrosamento da dupla, Jennifer ressalta a seriedade da parceira ao encarar as competições. Bia, por sua vez, explica como a experiência trouxe uma nova perspectiva para sua trajetória:
“Eu sempre fui dedicada desde nova, mas acho que agora que eu estou com 31 não tem mais tempo para perder. Se você está aqui, tem que estar direito, porque está gastando tempo de vida. Temos que aproveitar tudo que tem que aproveitar”, concluiu.
Início de carreira veio por acaso para a atleta de Caxias
Quando entrou pela primeira vez em um barco de remo, em 2018, aos 13 anos, Jennifer não imaginava que aquela experiência pudesse se transformar em um projeto de vida. O convite veio de maneira quase casual, por meio do pai de uma amiga que trabalhava no Flamengo. Desde então, o remo passou a ocupar um espaço cada vez maior na vida da atleta de Caxias, no Rio de Janeiro, que permanece no clube até hoje. Antes disso, nunca havia praticado outro esporte. A mudança de perspectiva veio em 2022, quando conquistou o título brasileiro no single skiff júnior. Foi ali, segundo a própria atleta, que aconteceu a sua “virada de chave”.
O resultado fez Jennifer passar a enxergar o remo não apenas como uma atividade esportiva, mas como um caminho possível para o alto rendimento. A partir daquele momento, os objetivos ganharam outra dimensão: competições internacionais, Seleção Brasileira e, no horizonte, o sonho de disputar os Jogos Olímpicos.
A evolução veio acompanhada de resultados importantes. Em 2024, ainda na categoria júnior, Jennifer foi bicampeã sul-americana, vencendo o single skiff e o double skiff. Naquele mesmo ano, também avançou para novos desafios internacionais e começou a construir seu caminho.
Em 2025, já no Sub-23, a remadora manteve presença nas principais equipes brasileiras da categoria e disputou o Mundial. Também integrou a seleção que participou dos Jogos Pan-Americanos Júnior de Assunção, onde subiu ao pódio quatro vezes. Agora, Jennifer encara uma mudança de patamar.
“Eu ainda continuo no Sub-23 durante dois anos, mas ano que vem já quero tentar mudar para a categoria Sênior”, afirma. A experiência recente no ambiente da Seleção também ajudou a atleta a entender a diferença de exigência entre as categorias. “Treinar com a Seleção Sênior muda muito, porque a mentalidade é muito diferente”.











