
Ricardo Santos e Emanuel Rêgo
Vôlei de praia
Atenas 2004
•Pequim 2008
BIOGRAFIA
No verão de 2004, em uma praia artificial montada no coração de Atenas, dois brasileiros fizeram o que o Brasil inteiro esperava — mas que até os próprios realizadores hesitavam em prometer com garantia. Ricardo Santos e Emanuel Rêgo venceram a final olímpica do vôlei de praia e conquistaram o que era, ao mesmo tempo, a maior vitória individual de suas carreiras e um capítulo definitivo na história do esporte nacional. Não foi apenas um título olímpico. Foi a coroação de uma parceria que redefiniu o jogo, transformou a modalidade e fez de dois nomes um único símbolo: Ricardo e Emanuel — ou, como a brincadeira popular consagrou, Ricardo e Manoel.
Mas para entender o que aquele ouro representou, é preciso voltar ao começo. Ao tempo em que o vôlei de praia ainda era visto, no Brasil e no mundo, como um esporte de verão, de espetáculo, de bronzeado e coqueiro. E ao momento em que cada um deles precisou fazer a escolha mais difícil de sua vida.
Emanuel: o menino de Curitiba que sonhava em ser médico
Emanuel Rêgo nasceu em Curitiba, no Paraná, filho de um maranhense de família grande — quase 45 primos — e descendente de alemães e italianos pelo lado materno. Cresceu em um ambiente plural, caloroso, onde o futebol era a paixão do pai e o esporte, em geral, era parte do cotidiano. Mas Emanuel tinha dois sonhos que pareciam não combinar: ser médico e ser atleta.
"Com 11 anos eu assistia à Geração de Prata, medalha de prata em Los Angeles 1984. Aquilo ali mexeu comigo. Eu comecei a sonhar em ser atleta olímpico", conta Emanuel. "Mas o meu grande sonho era ser médico."
Durante anos, tentou conciliar as duas vocações. Passou três anos se preparando para o vestibular de Medicina. Na primeira tentativa, ficou perto. Na segunda, longe. Na terceira, mais longe ainda. Foi nesse momento que algo se reorganizou dentro dele — e o sonho da infância, o que havia nascido vendo a seleção de vôlei na televisão, voltou com força total.
"Foi aí. Não foi uma decisão momentânea. Foram momentos da minha vida que foram mudando e exigiram as minhas mudanças", reflete Emanuel.
Ele havia começado no vôlei de quadra, onde nutria o sonho de um dia ser convocado para a Seleção Brasileira. Jogava como central — posição que, com o passar dos anos e a chegada de uma nova geração de atletas mais altos, foi ficando inviável para alguém de 1,90m. Emanuel percebeu que o futuro, na quadra, não seria para ele.
"A primeira grande decisão foi sair do vôlei de quadra, que era o meu sonho. Mas eu era um jogador de um metro e 90, jogava de central, e logo após a minha geração foi aquela geração de atletas com dois metros, dois metros e cinco. Eu vi que o meu futuro não seria ali", explica.
A saída para a praia não foi simples. Era 1993, e o vôlei de praia ainda não tinha o status olímpico que conquistaria três anos depois. Para a maioria das pessoas — inclusive sua família —, era um esporte de verão, de diversão, não uma escolha de carreira séria.
"Foi uma decisão difícil. Eu tive muito apoio dos meus pais nessa época", lembra Emanuel. "Eu fiz um trato com eles: 'Vou jogar vôlei de praia, vou morar fora de Curitiba. Se em três, quatro anos eu não conseguir algo que tenha sucesso, eu volto para Curitiba para estudar'."
No dia 13 de março de 1993, Emanuel saiu de Curitiba. Três anos depois, estava nos Jogos Olímpicos de Atlanta. "Cheguei com meus pais em 96. Muito obrigado por confiar. Vocês confiaram em mim e eu consegui ter sucesso no esporte", recorda, com emoção evidente ainda hoje.
Ricardo: da prata à busca pelo ouro
Ricardo Santos chegou ao vôlei de praia por um caminho diferente — mas igualmente marcado pela determinação. Antes de encontrar Emanuel, já havia vivido o sabor amargo de chegar perto do topo sem alcançá-lo. Nos Jogos Olímpicos Sydney 2000, ao lado de Zé Marco, conquistou a medalha de prata — resultado expressivo, mas que deixou uma pergunta em aberto: o que faltaria para o ouro?
"Eu acreditava muito pelo que nós proporcionamos para esse novo ciclo olímpico, 2004, trazer algumas funções novas dentro do nosso grupo, trazer profissionais novos que ajudassem a nos capacitar ainda mais para essa conquista olímpica", conta Ricardo.
Quando a parceria com Emanuel se formou, havia algo de incomum no encontro de dois bloqueadores — normalmente, uma dupla de vôlei de praia é formada por um bloqueador e um defensor. Os dois tinham perfis parecidos na posição. Isso exigiu uma reinvenção.
"A gente teve que se reinventar com novas valências dentro de uma equipe competitiva. A gente tinha que formar agora um time bom do lado defensivo, tão bom quanto o lado ofensivo", explica Ricardo. "Durante uns seis meses, a gente fez muitos testes de posicionamento, trocava de lado, revezava. Até o momento que a gente começou a entender como a nossa equipe funcionava."
E ela funcionava muito bem. De todas as formas. Tanto com Ricardo bloqueando integralmente quanto com a função dividida entre os dois.
A formação da dupla: quando os objetivos se encontram
A primeira conversa séria entre Emanuel e Ricardo, antes da formação oficial da dupla, já deu o tom do que estaria por vir.
"A primeira conversa que tive com o Ricardo, perguntei para ele qual o seu objetivo no vôlei de praia. Ele respondeu: 'Quero ganhar todo jogo'. Aí eu me assustei. Falei assim: 'Por isso que eu quero também'", conta Emanuel com um sorriso. "Quando já começa com objetivos em comum, faz com que a dupla não passe do ponto."
Mas não bastava querer vencer. Ambos entenderam rapidamente que sozinhos — ou somente em dois — não seriam campeões. Era preciso construir algo maior.
"Uma coisa que nós aprendemos juntos é que eu e ele não conseguíamos ser campeões. A gente precisava de outras pessoas", conta Emanuel. "Nós formamos uma equipe técnica que foi fundamental."
O treinador Gilmar Batista, o Cajá, foi peça central nessa construção. A base de treinos foi estabelecida em João Pessoa, na Paraíba — cidade costeira onde o vento sopra forte e constante, condição que afasta muitos atletas, mas que a dupla transformou em vantagem estratégica.
"Nós queríamos ver jogar todos os jogos. Nós escolhemos sempre estar nos lugares de maior dificuldade. Ninguém gostava de treinar em Portugal, era muito duro, muito pesado. Nós não — nós vamos treinar em Portugal porque lá fora dura o nosso jogo", explica Emanuel. "O nosso mérito é esse: lidar com a dificuldade para chegar no jogo e jogar de uma forma muito tranquila, muito leve."
O vento de João Pessoa não era obstáculo. Era laboratório. Era matéria-prima. Era o que os tornava diferentes de todos os outros quando as condições nos torneios ao redor do mundo ficavam difíceis.
Os primeiros resultados juntos, porém, não foram animadores. Nos dois primeiros campeonatos, foram muito mal. A parceria vacilou. Mas em vez de abalar a confiança, as derrotas funcionaram como cimento.
"Depois dessas duas derrotas, a gente não perdeu mais", recorda Emanuel. "Significa que para você montar um time, você tem que passar por um momento também de derrota. E acho que foi fundamental para a formação dessa dupla."
Uma nova forma de jogar — e de viver o esporte
Ao longo dos anos, Ricardo e Emanuel não apenas venceram — eles mudaram o jogo. Literalmente.
Antes da parceria deles, as duplas no vôlei de praia eram formadas por critérios de tamanho e habilidade semelhantes: atletas parecidos jogavam juntos. A dupla trouxe uma nova lógica: um atleta mais alto, especializado no bloqueio na rede, e um atleta mais ágil e veloz na defesa. Um sistema que se mostrou tão eficiente que reconfigurou o esporte.
"Esse formato de ter um atleta alto, bloqueador, que ficava o tempo inteiro sustentando a rede, e um atleta mais rápido atrás — esse formato eu acredito que foi feito na nossa parceria", afirma Emanuel. "Hoje, se você olhar qualquer partida de vôlei de praia, você vai ver uma atleta alta na frente bloqueando e uma defensora mais baixa, mais veloz. Essa característica deve muito ao Emanuel e Ricardo."
Ricardo concorda — e amplia o ponto. A forma como a equipe se organizava, a filosofia que construíram juntos, tornou-se uma referência que vai além dos títulos.
"Acho que a gente deixou que o esporte vale a pena. Com dedicação, com responsabilidade, ele pode fazer a diferença na vida. Não é fácil viver do esporte — você tem que se impor em muitas ações para se tornar um bom atleta competitivo e deixar esse legado", reflete Ricardo.
Fora de quadra, construíram também um modelo de conduta que marcou o ambiente esportivo. Nos treinos e nos jogos, havia um protocolo não escrito, mas respeitado: não se falava de vida pessoal, cada coisa em seu lugar e seu momento. O foco era total quando era hora de focar. A parceria era protegida com cuidado quase fraternal.
"A gente tinha um respeito muito grande um pelo outro. Nos treinos, nos jogos juntos, não falávamos de vida pessoal, deixávamos só para certos momentos", conta Emanuel. "Acho que esse modelo de equipe é o que eu gostaria que os atletas vissem no futuro."
"Ninguém falava mal do Ricardo, por que não? Eu protegia o Ricardo. Era como se fosse uma irmandade mesmo", completa Emanuel.
Ricardo define a essência da parceria com uma convicção que só os anos de convivência podem produzir: "Cada um respeitava muito bem a individualidade de cada um, e por isso a gente conseguiu ser e vencer muitos anos seguidos, tanto no circuito nacional como internacional."
A jornada de Emanuel — os parceiros que o formaram
Para entender Emanuel completamente, é preciso conhecer a história antes de Ricardo. Porque ele não chegou pronto para aquela parceria — chegou construído por ela, e por todas que a antecederam.
O primeiro grande parceiro foi Aluísio, dez anos mais velho, um veterano do vôlei de quadra que havia migrado para a praia. Com ele, Emanuel aprendeu o que significava ser profissional.
"O que eu aprendi com o Aluísio? Aprendi a ser profissional, a entender meu corpo, entender meu físico. Como ele era dez anos mais velho e já tinha essas ferramentas, eu falei: 'Aluísio, você é o meu tutor, meu mestre, para entender como é ser um profissional'", conta Emanuel.
Com Zé Marco, o aprendizado foi diferente: a habilidade técnica refinada, e a descoberta de que era possível ser amigo verdadeiro de um parceiro dentro e fora de quadra. "Com ele eu aprendi tanto a habilidade do jogo quanto entender que ele era muito família. Aprendi que é possível ser amigo do jogador que você está jogando junto."
Depois veio Loyola, durante uma temporada no circuito americano. Com ele, Emanuel trouxe para o jogo um lado aguerrido, agressivo, mais incisivo. "Com o Loyola eu tinha esse espírito muito mais aguerrido. Eu trouxe um lado aguerrido para o meu jogo."
Cada parceiro deixou uma camada. E quando Ricardo chegou, havia um Emanuel completo esperando — alguém que sabia ser profissional, que sabia ser amigo, que sabia ser agressivo nos momentos certos, e que tinha a estratégia e a leitura de jogo apuradas por anos de competição.
"Com o Ricardo, a história já encontrou um parceiro perfeito, em que consegui conciliar todas as vertentes dos parceiros anteriores", resume Emanuel. "Eu sou um mix de todos. Dessa minha família e de todas essas pessoas que passaram pela minha vida."
Atenas 2004 — o caminho até a final
Os Jogos Olímpicos Atenas 2004 chegaram com o peso do favoritismo. Emanuel e Ricardo haviam sido campeões mundiais no ano anterior — e no vôlei de praia, quem vence o Mundial no ano pré-olímpico chega aos Jogos com uma bagagem que outros não têm.
Mas o favoritismo tem seu próprio preço. Cada adversário que entrava em quadra contra eles sabia exatamente o que estava enfrentando — e jogava acima do normal. A pressão de confirmar o que todos esperavam era constante.
"Nós chegamos nos Jogos Olímpicos Atenas 2004 muito confiantes, mas acho que o grande ponto foi que cada jogo foi muito difícil para nós. Éramos os favoritos e todos os outros times jogavam muito bem contra a gente. A gente teve que ter várias batalhas", conta Emanuel.
Três semanas antes do início dos Jogos, uma notícia sacudiu a dupla: Ricardo sofreu uma lesão. Ficou duas semanas se recuperando, sem treinar normalmente. A dúvida sobre se conseguiria competir em plenas condições era real.
"O maior susto daqueles Jogos foi que, três semanas antes dos Jogos Olímpicos, eu lesionei e tive que ficar duas semanas me recuperando para poder ter a oportunidade de jogar", conta Ricardo. "Deu sorte, porque durante a minha lesão, que a gente fazia a base em Portugal, ali tinha um fisioterapeuta, o Rodolfo Filho, que fez todo esse trabalho e me deixou apto a competir no alto rendimento."
Ricardo entrou nos Jogos sabendo que não estava 100%. Mas o time estava. E era o time que contava.
"Independente das dificuldades que a gente teve nos Jogos Olímpicos, a gente tinha armas, que era a união do nosso grupo. A gente já tinha armas, que era o diferencial daquela edição dos Jogos. Acho que a gente já foi vencedor pelo que a gente criou como time", afirma Ricardo.
A semifinal foi o jogo mais difícil do torneio. Para Emanuel, aquele era o momento crucial — porque na semifinal estava a garantia de, ao menos, uma medalha. E ele lembrava que havia perdido essa oportunidade antes.
"Eu pensei: se a gente ganhar, a gente já tem a medalha garantida, que é o sonho de todos nós. Se a gente perder, a gente pode perder uma medalha que eu já tinha perdido duas possibilidades", conta Emanuel. "O Ricardo mostrou que a gente sabia lidar com os problemas, com as dificuldades."
A final: dois sets, uma conquista, uma frase que ficou
A final olímpica de Atenas foi disputada contra a dupla espanhola Bosma e Herrera — parceiros que, ao longo da temporada, haviam vencido Ricardo e Emanuel em algumas etapas do circuito. A ameaça era real. A tarefa, não era simples.
Logo de início, os espanhóis adotaram uma estratégia clara: sacar repetidamente em Ricardo, que disputava o torneio com uma botinha de proteção no tornozelo lesionado. O plano era anular o bloqueador brasileiro, limitá-lo, forçá-lo a errar.
Não funcionou.
"Ali demonstra o quanto o Ricardo merecia aquela medalha", conta Emanuel. "Ele virou todas as bolas. Sacaram o jogo inteiro nele — foram dois sets apenas ele. Ele virou todas as bolas, e cada bola que ele virava eu ficava mais confiante."
A energia funcionava como um ciclo virtuoso: quanto mais Ricardo convertia bolas difíceis, mais Emanuel se soltava no saque. Quanto melhor Emanuel sacava, mais pressão os espanhóis sentiam. A dupla foi dominando.
"O misto de energias: ele atacava bem, eu começava a sacar bem. Então isso fez com que a nossa equipe fosse brilhante", recorda Emanuel.
Ricardo descreve o estado mental daquela final com uma precisão que revela o quanto os dois estavam presentes naquele momento — não ansiosos pelo futuro, não presos no passado. Ali, no ponto a ponto.
"A gente foi muito seguro do que a gente estava fazendo ali. A cada ponto, a cada saque, a cada bloqueio, a cada virada de bola, a gente estava bem consciente. Não teve um momento de 'ah, vamos sentar, vamos pensar, vamos falar de novo sobre o jogo'. A gente foi perfeito naquela final", afirma Ricardo.
No segundo set, abriram vantagem expressiva — 19 a 12. Naquele momento, Emanuel fez o que o campeonato não permitia ainda: começou a comemorar, como se o título já tivesse chegado. Ricardo chegou perto e disse com clareza: "Não terminou ainda." E foram ao saque.
"Aquele foi tão bacana que eu aceitei. E fomos para dois pontos, e ali já demonstra a maturidade que a gente tinha, que a gente queria muito ser campeão", conta Emanuel com o tom de quem ri da própria emoção.
Os espanhóis encostaram — chegaram a 20 a 15. Ricardo errou um saque. A tensão voltou. Mas era uma tensão diferente: a de quem sabe que está à beira da vitória, não de quem teme a derrota. E então, no ponto seguinte, foi feito.
"Depois de um ponto, acho que não se pensa mais nada. Você só sente", diz Ricardo. "Acho que a gente só veio sentir mesmo."
No abraço final, quando a bola caiu e o Brasil era campeão olímpico, Ricardo disse para Emanuel uma frase que ficou gravada para sempre: "Obrigado por me tornar campeão olímpico."
"Quando a gente ganha um título como esse, eu não paro para pensar em mim. Naquele momento eu pensei em todas as pessoas assistindo — meus pais, minha namorada, a comissão técnica, o Cardeal Rossini. Todas as pessoas estavam felizes com a gente. Então é um sentimento que não tem preço", recorda Emanuel.
O impacto que foi além da medalha
A conquista de Atenas não foi apenas o ponto mais alto de duas carreiras individuais. Foi um evento que abalou o vôlei de praia brasileiro em suas fundações — de forma positiva.
O esporte havia começado a ganhar contornos olímpicos anos antes, quando a modalidade estreou em Atlanta 1996. Naqueles Jogos, foram Jacqueline e Sandra, as primeiras medalhistas olímpicas de ouro do vôlei de praia brasileiro — mulheres que abriram um caminho e carregaram a responsabilidade de mostrar ao país que aquilo era sério, que era possível.
"Em 96, elas foram as verdadeiras ícones do vôlei de praia. Depois fomos nós, os primeiros medalhistas de ouro masculinos do Brasil em Jogos Olímpicos. Então isso ficou muito forte. A gente conseguiu vender o vôlei de praia através desse título", conta Emanuel.
Ricardo recebeu, nos dias e semanas seguintes à conquista, mensagens de pessoas do mundo do vôlei que não eram atletas — técnicos, preparadores, organizadores — agradecendo o ouro. Porque o ouro não era só deles. Era de todos que tinham construído a modalidade ao longo de anos.
"Recebi inúmeras mensagens de muitos amigos que já trabalhavam com o vôlei de praia, agradecendo a conquista, porque ali estava o trabalho deles também", conta Ricardo. "Foi bem bacana assim poder viver esse outro lado."
O impacto veio em ondas. Mais visibilidade. Mais patrocinadores. Mais jovens querendo jogar vôlei de praia. E, nas gerações seguintes, atletas que aprenderam a jogar olhando para Ricardo e Emanuel — que estudaram os movimentos, que copiaram o sistema de bloqueio, que internalizaram a filosofia de equipe que a dupla havia criado.
"Hoje eu tenho atletas de alto rendimento que jogam o circuito mundial, eu treino esses atletas, e eles falam: 'Eu tava vendo seu vídeo e vou tentar fazer igual que você fazia porque funcionava'", conta Ricardo. "Você vê que o que você fez no passado pode impactar no hoje — não só pelas conquistas, mas pelas ações que você faz dentro de quadra e até fora delas."
O legado de uma dupla que virou filosofia
A força de Ricardo e Emanuel como dupla foi se tornando algo que ultrapassava as conquistas. Eles não eram mais apenas dois atletas que ganhavam muito. Eram uma referência de como montar uma equipe, de como competir com consistência por anos a fio, de como respeitar o parceiro sem perder a individualidade.
"A gente nunca parou para pensar em quanto a gente venceu. A gente só ia curtir aquele momento. O mais difícil é o dia a dia dentro de quadra, o treinamento, abdicar de muitas coisas para estar ali. Competir é o mais fácil. O dia a dia do treinamento, tentar melhorar a cada dia — isso é o mais difícil", afirma Ricardo.
"Nós tínhamos o nosso planejamento de jogar todas as partidas e querer evoluir", completa Emanuel. "A gente era muito curioso. Sempre provocava o Cajá para trazer as informações do que a gente tinha que fazer de diferente. E o resultado estava ali."
Quando o Hall da Fama do Comitê Olímpico do Brasil anunciou a entrada da dupla — em uma categoria inédita, que pela primeira vez homenageia parceiros juntos —, tanto Emanuel quanto Ricardo sentiram que o reconhecimento tinha o peso certo.
"Fiquei muito feliz de entrar no Hall da Fama junto com o Ricardo, porque transcende um pouco o nome do atleta. Fica uma filosofia, fica o modelo, fica algo construído em dupla", diz Emanuel. "Quando você cria uma dupla que serve de exemplo, ela molda todos os parâmetros. Um atleta que quiser jogar vôlei de praia vai se moldar no Ricardo, na habilidade do bloqueador. Vai se moldar no Emanuel, na formação da equipe, no jeito de conversar, no jeito de comemorar, no jeito de interpretar os jogos."
Ricardo vê na homenagem algo com o mesmo peso de uma medalha olímpica — não pela grandeza do troféu, mas pelo que ela representa: o reconhecimento do que foi construído ao longo de toda uma vida no esporte.
"Para mim, vejo como um prêmio com o mesmo peso de uma medalha olímpica. Você ser lembrado é sempre muito louvável e emocionante para o atleta. E você ser lembrado pelo Comitê Olímpico — você vê que, por realmente aquilo que você construiu, está sendo louvável a nível nacional, a nível internacional", afirma Ricardo.
Hoje, Emanuel atua como gestor no Comitê Olímpico do Brasil, no outro lado da equação — o lado de quem estrutura as condições para que novos atletas possam ter as melhores comissões técnicas, os melhores recursos, as melhores chances de competir. Ricardo trabalha como coach, formando atletas de alto rendimento que disputam o circuito mundial.
Os dois continuam no esporte. Continuam ensinando. Continuam sendo referência.
E talvez seja essa a maior conquista de Ricardo e Emanuel — maior até do que o ouro de Atenas: a capacidade de permanecer vivos no esporte muito depois que os Jogos terminaram. De continuar sendo o espelho em que os jovens se olham quando sonham com uma medalha olímpica.
"Eu gostaria que eles entendessem que nós demos o pontapé inicial para que o país se tornasse uma grande potência. Não que nós fomos os maiores, mas que nós ajudamos a formar um país vencedor", diz Ricardo.
"O que eu quero que um jovem atleta veja no futuro é esse modelo de equipe — como criar uma equipe, como jogar junto mesmo, como viajar juntos, como ter respeito um pelo outro dentro e fora da quadra", completa Emanuel.
A dupla que transformou o vôlei de praia não foi feita de acidente ou de sorte. Foi feita de escolhas — difíceis, corajosas, às vezes solitárias. De um menino que saiu de Curitiba com uma aposta no próprio talento. De outro que havia provado a prata e queria saber o sabor do ouro. De dois homens que decidiram, juntos, que seriam maiores do que a soma das partes.
Na areia de Atenas, em agosto de 2004, essa decisão se provou certa.
E o Brasil nunca mais viu o vôlei de praia da mesma forma.



2
Medalhas em Jogos Olímpicos

Categoria: Dupla
Ricardo Alex Costa Santos
06/01/1975, Curitiba-PR
Emanuel Fernando Scheffer Rêgo
15/04/1973, Salvador-BA

GALERIA DE FOTOS
RESULTADO EM DESTAQUE
| edição | resultado | prova |
|---|---|---|
| Jogos Olímpicos Atenas 2004 | 1º Lugar | Masculino |
| Jogos Olímpicos Pequim 2008 | 3º Lugar | Masculino |
| Jogos Pan-Americanos Rio 2007 | 1º Lugar | Masculino |
| Campeonato Mundial de Vôlei de Praia Rio de Janeiro 2003 | 1º Lugar | Masculino |







