COB

“Prata com gosto de ouro”: Ana Júlia Amaral reencontra sua melhor versão em Dakar 2026

Duas vezes medalhista nos Jogos Olímpicos da Juventude, nadadora supera ano desafiador e volta a se aproximar de sua melhor marca

Por Comitê Olímpico do Brasil

6 de nov, 2026 às 17:21 | 6 minutos de leitura

Compartilhe via:

Tatiana Abreu/COB

Quando tocou a borda da piscina após os 200m borboleta e viu o tempo de 2min13s01, Ana Júlia Amaral sabia que aquela prata significava muito mais do que a posição no pódio. A apenas cinco centésimos de sua melhor marca pessoal, a brasileira encerrou sua participação nos Jogos Olímpicos da Juventude Dakar 2026 com duas medalhas e, principalmente, com a sensação de ter reencontrado uma versão de si mesma que vinha buscando ao longo de todo o ano.  

“Essa prova foi uma prata com gosto de ouro. E foi um tempo com gosto de melhor da vida”, resumiu.

O resultado nos 200m borboleta veio depois do bronze nos 100m borboleta, conquistado no primeiro dia da natação. Ana Júlia foi, assim, ao pódio em duas das três provas individuais que disputou em Dakar – ela terminou em sexto nos 50m borboleta. A atleta já tinha sido a primeira nadadora brasileira a ganhar uma medalha individual feminina na história dos Jogos Olímpicos da Juventude. Antes dela, entre os brasileiros, apenas Matheus Santana havia conquistado medalhas individuais na modalidade, com dois ouros em Nanjing 2014.  

Mas foi justamente na prova que considera sua principal especialidade que Ana Júlia chegou com menos certezas.

“Eu achava que essa prova estava mais difícil de pegar a medalha do que nos 100m borboleta, mesmo sendo minha prova principal. Eu pensei: ‘vou buscar ali um terceiro, vou brigar por um terceiro’. Para mim, conseguir a prata foi muito maior que tudo. Fazia muito tempo que eu não chegava nem perto do meu melhor tempo. Estou muito feliz de estar voltando a nadar bem.”

Ana Júlia terminou atrás apenas da chinesa Chang Mohan, campeã com 2min09s93. Michelle Surjadi Fang, da Indonésia, completou o pódio, com 2min14s10. Nas últimas braçadas, a brasileira já sentia o peso do esforço, mas decidiu não guardar nada. 

“Veio tudo de mim. Quase que nas últimas braçadas eu não aguentei, mas estou muito feliz com esse resultado”, disse. 
 

Uma história que começou em família

A relação de Ana Júlia com a piscina começou muito antes de as medalhas entrarem nos planos. A natação já fazia parte da história da família. A mãe e as tias haviam sido atletas, e a intenção inicial era simples: que Ana Júlia e a irmã aprendessem a nadar. A irmã acabou deixando a modalidade, mas Ana Júlia ficou.

Na infância, ela dividiu a piscina com a ginástica e o judô. Com o aumento da carga de treinamentos, porém, chegou o momento da primeira escolha importante. Passar de três para cinco sessões semanais tornava difícil conciliar as modalidades. Competitiva desde pequena e percebendo que tinha bons resultados na água, escolheu a natação.

“Eu sempre gostei muito do esporte e sempre fui muito competitiva. Sempre gostei de ganhar. Eu tinha muita garra e, como era boa na natação, escolhi continuar.”

Ainda muito jovem, os resultados começaram a aparecer. Aos 14 anos, segundo conta, já havia alcançado marcas expressivas. Com elas vieram também expectativas cada vez maiores. A menina que gostava de competir passou a cobrar de si mesma uma evolução constante. E foi justamente essa cobrança que tornou 2026 especialmente difícil.

Mudar para seguir em frente


No ano que ganharia duas medalhas em Dakar começou com uma transformação profunda na rotina de Ana Júlia. Ela mudou de cidade, passou a viver longe dos pais, trocou de ambiente de treinamento e precisou se adaptar a uma independência que ainda não havia experimentado. Natural de São José dos Campos, Ana Júlia se mudou para Minas ao ir treinar o Minas Tênis Clube. 

Os resultados, porém, não acompanharam imediatamente a transformação. Depois de alcançar bons tempos tão cedo na carreira, Ana Júlia atravessou um período em que sentiu sua evolução desacelerar. E, quanto mais queria reagir, mais se cobrava.

“Eu queria melhorar, queria continuar em destaque. Mesmo sendo muito nova, senti uma estagnada do ano passado para cá e acabei me cobrando muito.”

Ana Júlia Amaral Dakar 2026.jpeg
Ana Júlia Amaral em Dakar 2026 (Tatiana Abreu/COB)



Em determinados momentos, a cobrança virou dúvida. Não apenas sobre o desempenho, mas sobre todas as escolhas necessárias para seguir no esporte.

“Tem horas que a gente para e pensa: ‘será que tudo o que eu estou fazendo está valendo a pena?’. Porque você está dando sempre o seu melhor, fazendo força, se esgotando nos treinos e na rotina.”

Aos poucos, as pessoas ao redor ajudaram a recolocar aquelas dúvidas em perspectiva. Aos 17 anos, lembravam seus familiares e treinadores, ainda havia muito caminho pela frente.
 

Uma medalha para o avô

Por trás das duas medalhas, porém, Dakar carregou também uma ausência. Na véspera de Ana Júlia viajar para os Jogos, seu avô morreu. A notícia inesperada tornou ainda mais difícil uma competição que já chegava cercada de emoções. Ela tentou encontrar na própria rotina esportiva uma maneira de seguir em frente.

“Ele era uma das primeiras pessoas que me mandava mensagem depois de qualquer prova, de qualquer competição. Estou sentindo muita saudade disso.”
 

A chavinha que virou em Dakar

Antes de Dakar 2026, Ana Júlia decidiu mudar a forma como encarava o momento. Em vez de carregar para mais uma competição a frustração acumulada durante o ano, conversou com seus treinadores e pediu mais de si mesma. Queria treinar mais forte, treinar melhor e voltar a se aproximar dos tempos que sabia ser capaz de fazer.

O ciclo até Dakar foi curto, mas suficiente para que a equipe adaptasse a preparação. E ela embarcou para o Senegal com uma meta que ia além das medalhas: voltar a reconhecer sua própria natação.

“Eu queria deixar todos os pesos que estava carregando para trás. Cheguei aqui não só com vontade de pegar medalha. Para mim, o mais importante era voltar a fazer tempos perto dos meus melhores. Fazia muito tempo que eu não conseguia.”

Antes dos 200m borboleta, as dúvidas voltaram. Ana Júlia conversou com o pai e recebeu o apoio da equipe. Então buscou nas semanas anteriores uma evidência objetiva para acreditar: os treinamentos estavam bons. Era hora de confiar neles.

“Eu lembrei de todos os treinos que fiz e de tudo que as pessoas que me amam falaram para mim. Aí pensei: ‘vou confiar em mim mesma, vou dar esse voto de confiança para mim’.”

Os 2min13s01 foram sua melhor marca da temporada e ficaram a apenas cinco centésimos do melhor tempo de sua vida. Mais importante do que isso, devolveram a Ana Júlia a sensação de competir como gostaria.

“Esse ano, o mais perto que eu tinha chegado era 2min13s9. Agora foi 2min13s0. Não foi meu melhor, mas veio com gostinho de como se tivesse sido o melhor da vida, foi uma prata com gosto de ouro. Foi muito especial.”

As duas medalhas também deram a Ana Júlia uma nova perspectiva para as renúncias feitas ao longo do caminho.

“Mesmo quando estava tudo difícil, eu sei que dei um passo certo, um passo que tinha que ser dado. Eu escolhi o lugar certo, com as pessoas certas, porque, mesmo tendo sido difícil, ninguém largou mão de mim. Meus técnicos, minha família, meus amigos continuaram me apoiando. Então estou muito feliz de estar aqui. Está valendo a pena.”

Hoje, grande parte da rotina está direcionada à natação. Ana Júlia cursa o último ano da escola de forma online e planeja estudar nos Estados Unidos no futuro, conciliando a formação acadêmica com o esporte. Quando consegue escapar um pouco da piscina, gosta sobretudo de descansar, assistir televisão e aproveitar a companhia da amiga com quem mora e divide também a rotina de atleta.

Dakar mostrou ainda que as referências de Ana Júlia também estão muito próximas. Entre as brasileiras que admira, ela cita Giovanna Diamante, atleta olímpica e nome de destaque nos 100m e 200m borboleta, e Giulia Carvalho, sua companheira de treinos no Minas Tênis Clube.

Ana Júlia chegou a Dakar procurando uma medalha e, sobretudo, uma maneira de voltar a confiar na própria natação. Saiu com um bronze, uma prata e a melhor marca do ano nos 200m borboleta.

ÚLTIMAS NOTÍCIAS