"É um sonho realizado": Caio Bonfim supera vento e ritmo forte dos rivais para conquistar o ouro
Em meio ao frio em Santa Fé, medalhista olímpico e campeão mundial conquista sua quarta medalha em Jogos Sul-americanos com novo recorde; no salto em altura, amigos dividem pódio

Foto: Alexandre Loureiro/COB. IG:alexandreloureiroimagens
Um dos atletas mais regulares da marcha atlética mundial, Caio Bonfim chegou à Argentina sabendo que sua tarefa nos Jogos Sul-americanos não seria nada fácil. Afinal, a América do Sul concentra alguns dos principais nomes da prova. No começo da manhã desta quarta-feira, com a temperatura marcando 8 graus e sensação térmica de 5, Caio Bonfim cruzou a meia maratona em 1h22min30s10 para se tornar campeão de Santa Fé 2026. A marca é o novo recorde sul-americano dos 21.097m, quando a prova é disputada em pista.
A vitória não foi fácil para o brasileiro, que chegou a ficar a 20 segundos de distância do pelotão principal e enfrentou um forte vento, antes de assumir a liderança e garantir uma vantagem sobre o equatoriano David Hurtado apenas na última volta. O equatoriano completou em 1h22min37s10, enquanto o também equatoriano Jordy Jimenez ficou com o bronze, com 1h23min25s70. É o segundo título de Jogos Sul-americanos para Caio, após o ouro nos 35km de Assunção 2022 e a quarta medalha na competição. O brasiliense também subiu ao pódio nos 20.000m em Medellín 2010 e nos 20km em Assunção 2022.
Porém, essa edição dos Jogos foi especial. Afinal, durante esses últimos quatro anos ele se tornou medalhista olímpico e campeão mundial, o deixando cada vez mais favorito em qualquer competição que disputa. Uma condição com a qual ele já aprendeu a lidar. "Quando você se torna campeão mundial, vem um peso com a medalha, sabe? Toda prova que você entra, tem o campeão mundial nela e todos querem ganhar. Então você tem que vir treinado, tem que vir bem”, disse Caio após a prova.

Após a prata nos Jogos Olímpicos Paris 2024 e as duas medalhas conquistadas no Campeonato Mundial Tóquio 2025, Caio Bonfim ainda teve uma temporada muito longa em 2026, que incluiu a disputa do Campeonato Mundial de Marcha Atlética em Brasília, na qual foi medalhista de bronze na prova da meia maratona. Porém, nada disso o impediu de chegar na Argentina com fome de ouro.
“Para mim é um sonho realizado, sério mesmo. Todo mundo fala ‘ah, você já ganhou tantas coisas’, mas eu fui campeão dos Jogos Sul-americanos no 35km e bronze nos 20km em 2022. Alguém falou na época ‘estávamos esperando seu ouro’, mas não perdi para nenhum ‘zé mané'. O Brian Pintado foi ouro, David Hurtado prata e em quarto, o Élder Arévalo. O Hurtado foi campeão dos Jogos Pan-Americanos, o Pintado foi ouro em Paris 2024, o Arévalo já foi campeão mundial. Então Sul-americano é sempre muito forte. Fico feliz que essa prova hoje foi uma construção, cuja última etapa vai ser o pré-olímpico, em 2027”, desabafou Caio.
Experiência em pista no Brasil ajudou

O ritmo da prova foi muito forte, o que chegou a assustar Caio Bonfim em certo momento, mas ele fez valer sua maior experiência, especialmente quando o vento ficou mais forte. Sempre checando o relógio e conferindo o ritmo com Gianetti Bonfim, sua mãe e treinadora, ele sabia que precisava ser tão rápido quanto foi no Mundial em que foi campeão, mas sem perder seu próprio controle de prova.
“Durante a pandemia a gente fez muita prova de pista e o Troféu Brasil tem sido na pista durante os últimos três anos. Acho que isso me ajudou muito hoje, porque no começo da prova eles estavam fazendo um ritmo que eu sabia que era muito forte. Na hora em que o vento começou, eu fiquei dentro do que eu sabia da minha experiência, pensando se eles teriam um bom final de prova. Tentei ser o mais inteligente sem perder eles de vista, porque realmente eu não conseguia naquele momento estar com eles. Mas foi bom, porque assim eu fiz 10 km bem consciente, o corpo aqueceu mais, eu consegui estar dentro da prova com energia”, contou, lembrando que chegou nos 20km em 1h18min34s, abaixo da marca que lhe deu o título mundial em 2025 e precisando ainda marchar por quase dois quilômetros até o fim.

“Tentei me guardar, inclusive temos um treino nosso de perseguição que fazemos porque nos preparamos muito para os últimos 3 mil metros. Só que o Hurtado ficava atrás de mim e em geral quem fica atrás é porque está bem, esperando a hora”, completou Caio, fazendo questão de agradecer aos colegas de treino que o deixaram prontos para a conquista de hoje.
Amigos dividem pódio no salto em altura
Além do ouro de Caio, teve dose dupla brasileira no pódio do salto em altura. Fernando Ferreira foi ouro com 2,14m, superando o colombiano Gilmar Devinson Correa, que ficou com a prata com a mesma marca. Thiago Moura foi bronze, com 2,11m. Ambos conquistaram suas segundas medalhas em Jogos Sul-americanos, mas pela primeira vez dividiram um pódio e comemoraram muito o feito.
“Thiago é um irmão que o atletismo me deu, né? A gente se ajuda dentro da prova, é muito importante ter alguém junto. Então eu fico lisonjeado de ter esse cara comigo. É alguém que entende bem da prova, muito didático, que ajuda, é uma parceria. E estarmos juntos pelo Time Brasil é mais legal ainda”, contou Fernando, que já foi prata em Cochabamba 2018.

“É sempre um grande prazer representar o Brasil, principalmente no topo da América do Sul. E eu e o Fernando temos uma história juntos, né? A gente cresceu junto desde a base e dividiu as coisas da seleção. É sempre um grande prazer, eu sempre falo que ele me faz um saltador melhor. Dividir com ele mais uma vez, um lugarzinho no pódio é sempre um grande, grande prazer”, acrescentou Thiago, campeão em Assunção 2022.
Os dois ainda comentaram a grande presença de crianças na torcida no Centro de Alto Rendimiento Deportivo (CARD) Pedro Candioti, que torciam pelos competidores de todos os países, e chegaram a incentivar muito os brasileiros. “A gente cresceu no atletismo, então estivemos no mesmo lugar que eles. Estávamos sempre torcendo pelos saltadores mais velhos e queríamos plantar uma sementinha. Sabemos que nem todo mundo vai ser atleta, mas é sempre uma troca muito boa e captar essa energia sempre ajuda”, disse Thiago.
“Você vê o tempo, o vento, e pensa ‘que difícil’, mas aí tem as crianças gritando ‘vamos, vamos’, e dá um gás muito massa”, completou Fernando.
Matheus Lima bate recorde do campeonato

Além da final dos 400m rasos, que vai disputar hoje à noite, Matheus Lima se garantiu em mais uma decisão, desta vez nos 400m com barreiras. Ele correu para 49.10, estabelecendo novo recorde dos Jogos Sul-americanos, abaixo dos 49.28 do argentino Guillermo Ruggeri em Cochabamba 2018. Guilherme Viana venceu sua semifinal, correndo para 49.97, e também está na final, que acontecerá na sessão noturna da quinta-feira, dia 24.












