Rebeca Camille sai da periferia do Rio para faturar o ouro no wrestling em Aracaju
Cria do Jacarezinho, a carioca dominou as disputas da categoria até 73kg

Ao chegar ao Centro de Convivência dos Jogos da Juventude Aracaju 2022 para as disputas de wrestling, nesta segunda-feira, dia 12, a carioca Rebeca Camille esbanjava tranquilidade e simpatia.
Falante, conversava com diversos atletas, ria, brincava. Quase como se não estivesse prestes a lutar. “Eu gosto, é para me distrair. Se não, penso demais na competição, começo a ficar nervosa e me desconcentro”, explica Rebeca. Mas após a medalha de ouro da categoria até 73kg ser conquistada, a conversa era um pouco diferente. “Estou muito bem, muito feliz e muito cansada também. Porque estava muito nervosa”, admite.
Já o técnico Cássio Bernardo estava assim desde cedo. “Eu fico ansioso porque sei o quanto isso é importante para esses jovens e o que eles passaram para chegar até aqui. Mas não deixa ela saber”, brinca.
Possivelmente Rebeca sabe, tamanha a afinidade entre os dois. A jovem que começou a praticar a modalidade num trabalho da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) no Jacarezinho, bairro da zona norte do Rio para melhorar sua performance no jiu-jitsu, hoje pensa o contrário. “Eu adorei o wrestling. E hoje uso o jiu-jitsu só como ferramenta. Ele me dá rapidez, flexibilidade e técnica de imobilização”, descreve. E foi útil. A final foi decidida com um touche sobre Eduarda Alves, do Rio Grande do Norte – quando a lutadora submete a adversária com as duas escápulas no chão. “Por isso eu jamais vou abandonar o jiu-jitsu”, vibra Rebeca.
O bate-papo pré-competição só não incluiu atletas da categoria até 73kg. “Nunca lutei contra nenhuma dessas meninas. E não gosto muito de conversar com as minhas adversárias para não criar afeto”, conta. Funciona. Rebeca venceu as duas lutas na sessão da manhã por 10 a 0 e passou para a final. O touche veio quando vencia por 9 a 0. Uma atuação impecável em que as adversárias não fizeram um ponto sequer. “Eu treinei muito para essa competição. De verdade. Não sabia como ia ser, se iria ganhar. Mas atleta tem que acreditar sempre”.
Ainda antes da final, Rebeca refletiu sobre seu caminho até aquele momento. “Meu pai me incentivou muito a fazer esporte, até para eu lidar com meu peso, que chegou a ser de 98kg”, relembra. “Quando ele morreu, dois anos, atrás, eu passei três meses longe do esporte”. A insistência do técnico Cássio foi determinante naquele momento. “Hoje eu vejo o wrestling como essencial na minha vida. É minha terapia. Me ajudou com a morte do meu pai, me ajuda nos dias em que não estou bem. Em momentos assim até peço para treinar com meu técnico, que é bem forte. Aí eu bato mesmo! Depois até peço desculpas”, ri. Além disso, Rebeca anda de skate para se divertir. “E quando caio, fico com raiva e treino com o Cássio de novo”, brinca.
A leveza de Rebeca fica fora do tapete de luta. Concentrada e aplicada, quando compete só olha a adversária e só escuta o treinador. O amor pelo esporte a faz pensar num futuro em que isto se faça presente. “Primeiro tenho vontade de ser atleta olímpica. Medalha de ouro, campeã mundial. Eu tenho vontade de ganhar tudo que se imaginar. Mas sei que não vou ser a atleta a vida toda. Hoje em dia eu dou aula de jiu-jitsu para crianças de 6, 7 anos e é maravilhoso. Então, quero fazer Educação Física. Eu quero ser o Cássio, essa é que é a verdade”. E esta medalha para a qual se preparou tanto já tem lugar de honra. “Essa? Vou deixar do lado da porta de entrada da minha casa. Vou botar um prego e pendurar lá pra todo mundo ver!”












