Focando em nova fase, judocas de destaque orientam nova geração da modalidade nos Jogos da Juventude
Nomes como Camila Yamakawa (MS), Felipe ‘Pedra’ Costa (SP), Nicolas Santos (SP) e Milena Mendes (RS), todos com passagens pela seleção brasileira, atuaram como treinadores em Ribeirão Preto

Ser ex-atleta de sucesso não garante ser um técnico de
destaque. Mas há muitas vantagens em ter conhecedores profundos da realidade do
dia a dia competitivo à beira das quadras, gramados e tatames. A competição de
judô dos Jogos da Juventude Ribeirão Preto 2023 chamou a atenção pelo número de
judocas com passagens pelas seleções de base e principais, donos de títulos
internacionais, orientando os jovens de até 17 anos, que iniciam a carreira
competitiva de alto nível.
Camila Yamakawa, do Mato Grosso do Sul; Felipe "Pedra" Costa e Nicolas
Santos, de São Paulo; e Milena Mendes, do Rio Grande do Sul, são alguns exemplos.
A transição de carreira deles é recente e, por isso, ainda estão se acostumando
aos desafios da nova posição, dentro do coach box.
“Achava que era fácil, mas quando a gente está na pele é que vemos o quanto é
sofrido também. Quando estamos do lado de fora, podemos ver melhor o que o
atleta pode fazer. A gente deseja que eles tenham essa sensação e peguem a
visão que estamos passando”, contou Yamakawa, que recentemente foi mãe dos gêmeos,
Akira e Hayla, e é tricampeã dos Jogos da Juventude.
“Essa parte de transição que estamos fazendo é desafiadora. Eu brinco com os
outros técnicos que eu prefiro lutar, o sangue ainda está pulsando. É
cansativo, não é fácil. Às vezes, os pais falam, você só fica sentado, dando
orientação. Como treinador, é um outro tipo de postura que precisamos ter. Lutando
você passa um nervoso só, só o seu. Na cadeira de técnico, são as emoções de
todos os atletas”, disse Nicolas Santos, titular do Brasil no campeonato mundial
júnior em 2013.
“A minha maior dificuldade é conseguir equilibrar a emoção e a razão. Eu tento
ser muito racional, ter uma conversa mais centrada com todos. Procuro sempre
trabalhar esse lado. Tem meninos que convivem o dia todo comigo, são muito
próximos. Para orientar melhor eles, eu estudo muito. Saber ser racional, mas
usar o coração na hora que tem que ser usado”, falou Milena Mendes, também
tricampeã dos Jogos.
Já as vantagens também são reconhecidas pela nova geração de treinadores. Além
da maioria deles ter passado especificamente por essa competição, organizada
pelo Comitê Olímpico do Brasil sob diferentes nomes desde o ano 2000, o fato de
terem deixado as competições recentemente ou ainda estarem lutando
esporadicamente os ajuda nas análises e orientações durante o combate.
“Quando cheguei aqui e vi a estrutura, veio uma memória muito grande da época
que eu lutei a competição. Estar aqui agora como técnico é uma responsabilidade
muito grande. Eu tenho um olhar diferente, penso que estou ali. Então, assim
como era como atleta, como técnico eu quero sempre que busquem o ippon (golpe
perfeito) o tempo todo”, confessou Nicolas, 29 anos, treinador do Projeto Olhar
Futuro, de São José dos Campos (SP).
“Ter sido uma atleta de alto rendimento me permite ler o que eles tão sentindo.
Essa conexão que eu tenho com os atletas é porque eu já passei por aquilo ali. Sei
pelo olhar, pela pegada, por uma mão no joelho, sei quando podem dar mais,
quando chegou no limite. Eu consigo direcionar os atletas de uma maneira que,
talvez, eu não tenha sido”, contou Milena, 31 anos, que hoje é treinadora da
Sogipa, de Porto Alegre.
“Os ciclos vão se encerrando. É muito legal ver tantos jovens técnicos porque acho
que a gente tem mais disponibilidade de viajar, estamos com um pouco mais de
gás de fazer cursos, temos uma intimidade maior com a internet para poder nos
aprimorarmos. Mas é claro que eu observo muito o que os técnicos mais
experientes fazem para tentar melhorar”, disse Camila, 28 anos, técnica do
Clube Sakurá de Judô, de Dourados (MS).
O futuro ainda está sendo escrito, mas a nova geração de técnicos aparenta
estar muito consciente das responsabilidades e alegrias, das dores e das
delícias de não estar mais vestindo o judogi e de ser chamado de sensei (mestre).
“Adoro ser técnica. Eu gostava muito de competir, sempre gostei. Mas não senti
muito a transição porque a adrenalina para mim é a mesma. Sinto que segui uma
linha de mãe com meus atletas: firme, justa, mas cuidadosa também. Acho que me
encontrei! Se eu soubesse o quanto ia gostar, tinha virado técnica antes”,
disse Milena, que realizou a última competição registrada pela Confederação
Brasileira de Judô em 2018, e é preparadora física, com especialização em
psicologia do esporte.
“Sempre almejo metas grandes. Meu desejo hoje é um dia ser uma boa técnica,
colocar atletas na seleção. Não só colocar, mas também fazer com que ela seja a
melhor da categoria. Tive a oportunidade de viver isso e, por isso, quero que esses
jovens possam sentir o gosto de tudo que senti”, disse Camila, vice-campeã
mundial júnior no peso-pesado em 2015 e vice-campeã brasileira em 2022.
“Estou muito feliz de estar aqui. É uma responsabilidade e um desafio muito
grande, mas fomos forjados nisso. Lutando, trabalhando, sem nada fácil. Estou
aqui firme e forte, dando o meu melhor para ajudar que outros atletas consigam
ir até mais longe do que eu fui”, completou Nicolas, que este ano foi campeão
do Aberto Pan-americano da Bahia.












