Com empurrãozinho de amiga e do destino, carteiro vira treinador de badminton e referência na Paraíba
Rui Ribeiro Mendes, da pequena Guarabira, criador do projeto “Badminton na Praça”, classificou quatro atletas pros Jogos da Juventude Ribeirão 2023

Era
coisa do destino. Demorou para acontecer, mas o encontro de um carteiro com o
badminton mudou a vida dele e de muitas outras crianças. Mariane Freire, Gabriel
Luiz Silva, Mattheus Mendes e Lavinia Lira formam a equipe da Paraíba nos Jogos
da Juventude Ribeirão Preto 2023 e são todos oriundos do projeto “Badminton na
Praça”, de Guarabira, cidade a cerca de 100km da capital João Pessoa e de Campina
Grande, maior cidade do interior paraibano. As duplas mistas Mariane/Gabriel
Luís e Mattheus/Lavínia terminaram a fase eliminatória com duas vitórias e uma
derrota.
“Tivemos alguns erros no primeiro jogo porque tivemos a dificuldade de usar uma
peteca de pena, que a gente não costuma treinar muito. Badminton virou minha
vida. Já faz nove anos que eu treino. Mais da metade da minha vida foi jogando.
Eu conheci várias pessoas. Penso em virar atleta profissional. Com o badminton
evoluindo, a gente começa a ver outros tipos de patamar que queremos
conquistar. O badminton é minha vida”, disse Gabriel Luiz, de 15 anos.
“A gente saiu de uma praça e olha onde estamos hoje, nos Jogos da Juventude, com
os melhores atletas do Brasil até 17 anos! Tudo começou como uma brincadeira,
bem novinho. Fui ganhando experiência e agora estou aqui. Vamos para cima porque
é um campeonato grande”, Mattheus Mendes, de 14 anos.
“Não sei dizer o quanto o badminton significa pra mim. O projeto me deu a
oportunidade de sair de onde eu moro, andar de avião pela primeira vez,
conhecer outras pessoas. Eu não gostei muito no começo, mas voltei agora e
parece que está dando certo. Acho que dá pra chegar longe, só precisa
treinar", disse Lavínia, de 15 anos.
“Se não fosse pelo projeto, a gente não estaria aqui. Ele sempre nos incentiva,
dá o material, tira horas do dia dele para dedicar para gente, faz toda a
diferença. Não é fácil porque treinamos numa praça, tem vento. É diferente de outros
atletas que têm um ginásio pra treinar, mas acho que enfrentar esses problemas
deixa a gente mais forte”, contou Mariane, de 15 anos.
O “ele” a quem Mariane se refere é Rui Ribeiro Mendes, ilustre filho da “Rainha do Brejo Paraibano”, que, graças a uma história de encontros e desencontros, chegou à terceira edição de Jogos da Juventude como treinador. “Eu sempre quis ser um grande atleta, mas não consegui. Minha profissão é carteiro. A educação física veio como acidente de percurso. Eu tinha uma colega que fazia os trabalhos dela de Educação Física sem pegar no livro. Um dia ela virou para mim e falou que eu estava devendo 70 reais para ela. Eu não entendi nada. Era a inscrição no vestibular, mas eu não cheguei a estudar. No dia da prova, estava jogando videogame com meu filho e essa amiga foi lá me buscar. Fui forçado, sem pretensão nenhuma, e acabei passando na segunda colocação em Educação Física pra UnB. Hoje, eu amo a Educação Física, amo meus alunos, amo o que faço. Minha pretensão, se Deus quiser, é passar num concurso pra professor. Eu devo muito ao badminton. Fico emocionado, me arrepio só de falar”, contou Rui, de 50 anos.
Depois de ser “forçado” a entrar na faculdade de Educação Física, foi a vez do badminton entrar, meio que sem querer nessa história. “Na semana pedagógica, eu ia fazer a oficina do futsal, mas tive um problema, cheguei atrasado e fui punido. Me colocaram para fazer a do badminton. Eu nem sabia o que era. O professor me deu um folheto e disse para eu entrar no Youtube e pesquisar mais. Não tinha ninguém para oficina do badminton no dia marcado, enquanto a de futsal e vôlei dando volta na quadra. Eu e o professor Jarbas começamos a brincar, e, quando pensamos que não, formou uma fila com mais de 30 alunos. A oficina de futsal e vôlei demorou dois dias, a nossa, 5”, contou.
Depois de dois encontros casuais, foi a vez de um caminho escolhido por vontade própria. E com direito a muita luta. “Quando terminou a oficina, o professor Cristiano Chew me propôs levar o badminton para minha cidade. Quando eu apresentei o projeto, virei motivo de chacota. Comecei com o projeto assim mesmo, com 4 raquetes. Dois dias depois, eu liguei pro professor Cristiano para falar que achava que o projeto não ia vingar, não por falta de aluno, mas por falta de equipamento. Falei: ‘Eu tenho 4 raquetes e 20 crianças numa praça. O que eu faço?’. Na outra semana, ele mandou mais raquetes para minha cidade. Hoje, o ‘Badminton na Praça’ se tornou um dos projetos mais conhecidos não só da cidade de Guarabira, como de todo interior da Paraíba. Completamos 8 anos ontem, com 65 crianças treinando de terça a sexta, de 18 às 21”, disse Rui, sem esquecer de uma última coincidência.
“O projeto nasceu há 8 anos, justamente no Dia do Educador Físico”. Um grande exemplo do que significa educar.












