Opinião: No esporte, devagar também se vai ao longe
Cada pequeno passo dado dentro do esporte aproxima atletas e torcedores de seus objetivos. Nos Jogos Olímpicos de Inverno Milão-Cortina 2026, vamos testemunhar o maior exemplo disso no skeleton feminino

Foto: Al Bello/Getty Images
*Por Gustavo Longo, especialista em Jogos Olímpicos de Inverno
Não faltam ditados populares que exemplificam a importância do trabalho, planejamento e paciência. O título deste artigo é um, mas há também o conhecidíssimo “de grão em grão, a galinha enche o papo”. Ou se preferir em italiano “chi va piano, va sano e va lontano”. É uma máxima que vale para a vida e também para o esporte, claro. Quando se há esforço e dedicação, os resultados costumam aparecer, ainda que possam demorar. E nesta sexta-feira, 13 de fevereiro, podemos testemunhar um dos nossos símbolos nos Jogos Olímpicos de Inverno Milão-Cortina 2026.
Nicole Silveira vai estrear no skeleton feminino quatro anos depois de surpreender em Beijing 2022 com a 13ª posição – nosso segundo melhor resultado da história. Nos últimos quatro anos, ela se colocou na elite da modalidade. As medalhas em etapas da Copa do Mundo apareceram (três bronzes) e ela brilhou no Mundial de Skeleton 2025 quando terminou na quarta posição. Para quem não conhece, são resultados impensáveis para o Brasil nos esportes de inverno. Porém, são frutos da dedicação da atleta e do trabalho de todos para colocar o país em novo patamar nas modalidades de neve e gelo.
Ainda que a Nicole em si tenha tido uma evolução rápida dentro do seu esporte (saiu literalmente do zero para o pódio em Copa do Mundo com menos de oito anos), o Brasil acumula pequenos passos há muito tempo.
Nossa primeira experiência em uma competição de inverno, por exemplo, foi em 1966 no Mundial de Esqui Alpino. Em 1992, estreamos em Jogos Olímpicos de Inverno em Albertville 1992 e, desde então, participamos ativamente de todas as edições e ampliamos a presença para outros esportes – apenas salto de esqui e combinado nórdico nunca tiveram presença de brasileiros. Se em muitas modalidades ainda estamos no começo de nossa trajetória, em outras já estamos acumulando expertise e “quilometragem”.
É por isso que devemos valorizar, por exemplo, resultados como o obtido pela Bruna Moura nos 10km do esqui cross-country nesta quinta-feira, dia 12. A 99ª posição parece pouco diante de olhos resultadistas, mas foi o melhor resultado da atleta em pontuação FIS em um grande evento (como Copa do Mundo e Mundial) nesta disciplina – mesmo com uma carga emocional grande. Cada passo que ela deu para chegar a esse desempenho aproximou o Brasil das primeiras posições – ainda que a estrada possa parecer longa em um primeiro momento.
Bruna Moura e Nicole Silveira têm consciência disso. Elas sabem que há muito mais envolvido do que simplesmente o resultado. A caminhada delas (e dos demais atletas) é a própria caminhada do Brasil como um todo nos Jogos Olímpicos de Inverno. Cada um deles contribuiu com um pequeno passo. Sobretudo em Milão-Cortina 2026, quando muitos brasileiros estão descobrindo esse novo mundo de possibilidades.
É hora, portanto, de valorizar a estrada percorrida e celebrar os resultados que aparecem pela frente – mesmo aqueles que, em um primeiro momento, possam parecer abaixo do esperado. Afinal, um dia nós chegaremos lá também.
Fatos e curiosidades sobre a estreia de Nicole Silveira no skeleton
Nicole Silveira não tem oito anos de experiência na modalidade: os primeiros treinos foram em março de 2018 e a primeira competição apenas em novembro de 2018
Oito segundos: foi a diferença de Nicole Silveira para a primeira colocada em sua primeira prova da Copa América de Skeleton
A evolução da Nicole é explicada pelas medalhas conquistadas: oito na Copa América (seis ouros e duas pratas), duas na Copa da Ásia (um ouro e uma prata) e três na antiga Copa Intercontinental (um ouro e dois bronzes)
Desde que passou a frequentar a Copa do Mundo e Mundial, Nicole Silveira teve 15 presenças no top 10 em 48 provas disputadas – quase um terço do total.
Antes de migrar para o skeleton, Nicole Silveira passou um ano competindo no bobsled e tentou vaga para PyeongChang 2018
Nicole é conhecida por ter sido fisiculturista antes dos esportes de trenó, mas ela também jogou futebol por muito tempo durante a universidade
Natural de Rio Grande (RS), Nicole é mais uma atleta da cidade no circuito de skeleton. O município gaúcho também é local de nascimento de Emilio Strapasson e Gustavo Henke, os outros dois brasileiros que competiram no Mundial de Skeleton.












