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Chiaki Ishii

MODALIDADE

Judô

DATA E LOCAL DE NASCIMENTO

01/10/1941 | Ashikaga, Japão

JOGOS OLÍMPICOS

1972

CONQUISTAS

1

Medalhas de Ouro

Campeonato Pan-Americano de Judô Londrina 1970

2

Medalhas de Bronze

Jogos Olímpicos Munique 1972 Campeonato Mundial de Judô Ludwigshafen 1971

Bronze nos Jogos de Munique 1972, a 1° medalha olímpica do judô brasileiro

segundos. Foi o tempo em que Ishii levou para derrotar o alemão Helmult Howiller, por ippon, e ganhar o bronze em Munique 1972

Biografia

O samurai que queria ser cowboy e abriu caminhos para o judô brasileiro

Leal e honrado, judoca deixou o Japão após derrota em seletiva olímpica. Em busca do sonho de ser caubói, ganhou a primeira medalha do Brasil na modalidade e serviu de exemplo para futuras gerações de campeões Com 22 medalhas - sendo quatro de ouro, três de prata e 15 de bronze – o judô é a modalidade mais vencedora do Brasil em Jogos Olímpicos. Desde Los Angeles1984, judocas brasileiros têm marcado presença no pódio em todas as edições dos Jogos, além de colecionarem conquistas em Campeonatos Mundiais e Jogos Pan-Americanos, tanto no masculino quanto no feminino. Curiosamente, essa tradição vencedora teve início com a desclassificação, numa seletiva olímpica, de um japonês que, mais do que um judoca, nasceu para ser samurai, um guerreiro leal e honrado: Chiaki Ishii, primeiro medalhista olímpico do judô brasileiro.  “Eu sonhava ganhar uma medalha olímpica desde pequenininho. Eu me preparei bastante para conquistar a vaga para Tóquio, em 1964, mas não consegui”, conta Ishii, que nasceu numa família de judocas, em Ashikaga, no Japão, em 1º de outubro de 1941. “Isao Okano, que era três anos mais novo do que eu, ganhou a luta na seletiva, ficou com a vaga e foi campeão olímpico. Eu fiquei arrasado”. Extremamente triste e decepcionado por não ter conseguido se classificar para defender o seu país, em casa, na primeira Olimpíada em que o judô foi disputado, Ishii tomou uma decisão que mudaria não apenas a sua história, mas que influenciaria o judô brasileiro por gerações.  “Depois de perder a vaga para os Jogos de Tóquio1964, meu pai decidiu sair do Japão para realizar o seu sonho de ser caubói, como os dos filmes de que tanto gostava. Ele não era o filho mais velho para cuidar da família, não tinha essa responsabilidade, e sempre sonhou vir para a América do Sul. Dizem que um vizinho dele havia viajado para cá e voltou falando que o Brasil era o país do futuro. Meu pai ouviu muitas histórias da América do Sul e ficou apaixonado, querendo viajar”, conta a ex-judoca Tânia Ishii, filha mais velha de Chiaki. Renovação O nome Chiaki, em japonês, quer dizer mil outonos e foi escolhido pelo pai de Ishii, o senhor Yukichi, antes de partir como combatente para a Segunda Grande Guerra, deixando a esposa Harue grávida. Tudo o que se sabia sobre o sexto filho é que nasceria no outono. Não havia como descobrir o sexo da criança, por isso, ele escolheu um nome que serviria tanto para menino quanto para menina. O pai foi prisioneiro de guerra, ajudou na construção da famosa Ponte do Rio Kwai, e só conheceu o filho Chiaki seis outonos mais tarde.  Nascido em tempos de guerra e escassez, com o pai distante, numa família com muitos filhos, Chiaki Ishii nunca teve medo de recomeçar ou se reinventar. Outono é tempo de renovação. E foi buscando uma completa mudança para a própria vida, que o jovem que trazia mil outonos no nome desembarcou no Porto de Santos, em 02 de maio de 1964, logicamente, em pleno outono brasileiro, trazendo na bagagem duzentos dólares, um quimono e o desejo imenso de ser bem-sucedido. Ele pisou em terras brasileiras, 60 dias após embarcar no Porto de Yokohama, no Japão, sem saber que entraria para a história do esporte do nosso país. Foi direto para uma colônia agrícola em Presidente Prudente, onde morou e trabalhou. Seu novo sonho era ser fazendeiro. Não demorou muito para que Ishii começasse a participar de lutas e a vencer os atletas consagrados da época.  “O judô já era um esporte popular na comunidade japonesa. Ele também fez sumô, chegou ao ponto de lutar sumô como se fosse um UFC de agora, tipo Vale Tudo, para ganhar um saco de arroz ou um pouco de dinheiro”, relata Tânia. DNA de Samurai Integrante da terceira geração de uma família de judocas, Ishii estava mais para samurai do que para caubói, embora amasse seriados norte-americanos como “Bonanza”. Seu bisavô foi o fundador da Academia Zoshikan, de artes marciais; o pai foi discípulo de Jigoro Kano, o criador do judô; todos os irmãos e irmãs lutavam – alguns com destaque - e ele mesmo era reconhecido como um dos grandes judocas da Universidade de Waseda, no Japão, onde estudava História.   “Queria conhecer a América do Sul inteira. Então, viajei durante dois anos. Fui para a Bolívia, Argentina, Chile e Peru, e conquistei tudo na luta. Senti que gostava muito do Brasil e decidi morar aqui para sempre”, conta Ishii, que logo depois de fixar residência em terras brasileiras, tratou de providenciar a vinda da namorada, Keiko, que havia deixado no Japão.  “Minha mãe conta que o meu pai escrevia muito bem, por isso, ao ler as cartas, ela imaginou o Brasil como um país dos sonhos”, lembra Tânia.  Corajosa: essa talvez seja a melhor palavra para definir dona Keiko, chamada carinhosamente por Ishii de “minha senhora”. Afinal, em plenos anos 1960, ela embarcou sozinha do Japão para o Brasil, para encontrar o seu grande amor.  “Eu não me sinto corajosa. Não pensei em nada. Eu havia prometido me casar com ele, então, segui o coração e vim para o Brasil para cumprir a promessa”, diz ela, em japonês. Passaporte para a medalha olímpica A técnica e a velocidade do jovem Chiaki nos tatames chamou a atenção da Confederação Brasileira de Pugilismo que, à época, era responsável pelo judô no Brasil. Augusto Cordeiro, o então presidente da entidade, sugeriu que ele se naturalizasse brasileiro para poder participar de competições oficiais e assim se fez.   “O presidente pediu e eu virei brasileiro”, simplifica Ishii.  Depois da naturalização, Ishii conquistou títulos nacionais, sul-americanos e pan-americanos. Antes de se transformar em atleta olímpico, seu grande feito foi a conquista da medalha de bronze no Campeonato Mundial de Ludwigshafen, na Alemanha Ocidental, em 1971, a primeira do Brasil. A partir daí, Munique1972 passou a ser o seu foco principal.  “Eu me preparei para ser campeão, fiz tudo para melhorar. Faltava adversário no Brasil, por isso, fui procurar em outros países. Mas nos outros países também não tinha adversário”, recorda ele.  Lutas de sumô, lutas na categoria absoluto – que reúnem atletas de todos os pesos - e jiu jitsu também fizeram parte da preparação.  “Eu fiz tudo isso para aprimorar minha técnica de chão. Também fiz outros esportes e muita musculação. Eu levantava 180 quilos no supino”, completa.  Na preparação para Munique 1972, Chiaki Ishii e Lhofei Shiozawa, representantes do judô brasileiro, passaram três meses treinando no Japão, com o auxílio do sensei (professor) Kyioshi, irmão de Ishii, que manteve a academia do bisavô.  Para a história Quando pisou no tatame para disputar a categoria meio-pesado, nos Jogos Olímpicos de Munique, Ishii estava às vésperas de completar 31 anos e só pensava na conquista da medalha de ouro. Abrir mão da sua nacionalidade japonesa, colocar esposa e duas filhas pequenas em segundo plano para poder se preparar adequadamente, perder o emprego todas as vezes em que viajava para treinar ou competir, treinar duro todos os dias durante muitas horas. Esse foi o preço pago pelo sonho olímpico de uma vida.  Em apenas 16 segundos, ele derrotou o senegalês Mohamed Dione, por ippon, no primeiro confronto. Contra Jen-Wuh Juang, de Taiwan, na segunda luta, a vitória por ippon demorou 38 segundos.  “O peso meio-pesado é mais devagar, mas meu pai sabia que tinha que ser rápido porque era mais velho. Não ia poder ficar levando quatro/cinco lutas de cinco minutos até o final, ele não ia ter força”, lembra Tânia Ishii.  No terceiro combate, Ishii venceu Pavle Bajcetic, da antiga Iugoslávia, também sem dificuldade. Embora a estratégia de Ishii fosse encerrar as lutas o mais rapidamente possível, o quarto confronto, contra o alemão ocidental Paul Barth, que lutava em casa, foi até o fim, sendo decidido, pelos árbitros, na bandeira (hantei).  “Aquela luta eu ganhei, mas o árbitro japonês porcaria puxou hantei para o alemão”, protesta Ishii.  Ao vencer a quinta luta, contra o alemão oriental Helmult Howiller, por ippon, em 57 segundos, Ishii entrou para a história ao garantir a medalha de bronze, a primeira do judô brasileiro em Jogos Olímpicos. O sonho estava realizado! De acordo com as regras vigentes na época, a sexta luta, contra o britânico David Collin Starbrook, poderia ter levado o brasileiro para a final. Mas não deu.  “Foi a minha luta mais difícil. Eu bobeei e ele me venceu no contragolpe”.  Mesmo sem a medalha de ouro, Chiaki Ishii já havia plantado a boa semente para o futuro vitorioso do judô nacional.  “Foi emocionante ver a bandeira brasileira subindo na hora do pódio, porque eu fiquei brasileiro. Eu queria ganhar medalha em Olimpíada desde criança. Não consegui no Japão e consegui pelo Brasil. Foi bastante sacrifício para chegar lá, mas a colônia japonesa me ajudou bastante, os meus amigos ajudaram bastante”, emociona-se Ishii, que foi demitido do clube onde trabalhava ao voltar da Alemanha como medalhista olímpico.  “O número de alunos da minha academia aumentou bastante depois da conquista. Perdi o emprego, mas ganhei alunos. Minha vida mudou bastante”.  Nota triste A lembrança triste dos Jogos de Munique 1972 foi o atentado terrorista aos atletas de Israel, quando 17 pessoas morreram, sendo seis treinadores e cinco atletas da delegação israelense, cinco terroristas do Setembro Negro e um policial da Alemanha Ocidental.  “Eu estava num prédio diagonal ao prédio onde ocorreu o atentado. Quase encontrei os terroristas na Vila Olímpica, eu estava bem perto. Foi muito triste, mas o presidente do COI esteve lá e decidiu continuar as competições”, recorda Ishii. O herói e os desbravadores A medalha de Chiaki Ishii trouxe aos judocas brasileiros a confiança necessária para acreditar em novas conquistas.  “Depois da conquista dele, as pessoas começaram a lotar os clubes e academias para fazer judô. Ele foi uma grande referência para o nosso judô crescer. Foi um espelho para que eu pudesse refletir e pensar que poderia me realizar como ele”, diz Luiz Onmura, responsável pela segunda medalha do judô brasileiro, bronze em Los Angeles1984. Foi exatamente a partir de 1972, ano da conquista de Ishii, que o campeão olímpico Rogério Sampaio (Barcelona1992) e seu irmão Ricardo (Seul1988) começaram a praticar judô, ainda bem pequenos.  “Um ídolo como o Ishii acaba se tornando uma referência com importância social, pois dele podem e devem emergir mais atletas, pelo exemplo dado. Aos 18 anos, eu tinha a certeza de que seu conhecimento e método poderiam contribuir muito para o meu desenvolvimento. Mudei-me para sua academia na Lapa e foi nesse período que ocorreu meu maior aprimoramento técnico. Todos da minha geração buscavam igualar seu feito, mesmo ele já tendo chegado ao Brasil com uma bagagem da maior escola de judô do mundo, achávamos que esse feito estava cada vez mais próximo”, diz Walter Carmona, que também conquistou medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de 1984 e foi o segundo brasileiro a subir ao pódio num Campeonato Mundial, com o bronze em Paris, em 1979.  Depois de disputar as Olimpíadas de Montreal1976 e Moscou1980 sem medalhas, nosso judô fez história em nos Jogos de 1984. Além dos bronzes de Onmura e Carmona, um brasileiro marcou presença numa final olímpica pela primeira vez. Douglas Vieira foi o autor do feito e voltou com a medalha de prata, coincidentemente na mesma categoria de Ishii, a meio-pesado.  “A partir do momento que o Ishii veio para o Brasil e conseguiu a sua classificação para os Jogos Olímpicos e uma medalha, abriu muito espaço para as pessoas entenderem que era possível que a gente também fizesse isso. Ele treinando aqui no Brasil, fazendo as coisas aqui no Brasil, foi para os Jogos Olímpicos e conquistou uma medalha. Isso foi uma abertura de caminho. Além do que ele era um excelente treinador, trouxe técnicas do Japão, trouxe treinamentos e tudo o mais. Foi um ponto de referência para todo mundo”, opina Douglas Vieira. Chiaki Ishii admite que sua conquista fez com que muita coisa mudasse no judô brasileiro.  “Mudou tudo. Faltava confiança naquela época. Os judocas começaram a pensar que também poderiam vencer. Eu treinei a seleção e eles conseguiram”, orgulha-se.  “O meu pai fez parte da preparação toda. Eles iam lá, na academia da Conselheiro Furtado, todos os dias, até nos finais de semana, para fazer treino. Meu pai chamava os atletas para irem lá em casa, para assistirem a vídeos e estudarem os adversários. Eu me lembro dele ensinando e estudando os adversários com cada atleta, fazendo tática de luta. Era o estrategista da seleção”, revela Vânia Ishii, a filha mais nova.  A medalha e os ensinamentos de Ishii estimularam as conquistas inéditas de dos Jogos de Los Angeles e, a partir daí, o judô ganhou um novo status entre as modalidades olímpicas.  “Antes dos Jogos de 1984, não se falava nada do judô. A partir do momento em que nós tivemos aquele resultado, as pessoas começaram a entender que o judô tem sete categorias e pode trazer sete medalhas. Foi o momento de se querer investir muito mais no judô, porque é diferente do futebol, que você tem 30, 40 pessoas para uma medalha. Eu sei que a proporção da propaganda é diferente, mas em número de medalhas, você conquista mais. Foi aí que eles começaram a dar valor também a um esporte individual, que seria o judô”, constata Douglas Vieira.  Pioneiros Em Seul1988, o judô brasileiro subiu ao degrau mais alto do pódio, com Aurélio Miguel. Primeiro campeão olímpico da história do nosso judô, Aurélio sempre admirou o estilo de luta de Chiaki Ishii e, exatamente como o primeiro medalhista (Chiaki Ishii) e o primeiro brasileiro a disputar uma final olímpica (Douglas Vieira), também lutou na categoria meio-pesado.  Aurélio recorda que o pioneiro do judô do Brasil atuou como árbitro em muitas de suas lutas, nos tempos de criança, e que, ao ver Ishii em ação, por vídeos, ficava impressionado com forma destemida dele lutar e de entrar os golpes.   “O Ishii foi importante na nossa formação. Havia treinos de fim de semana, na Federação Paulista, vinha gente do Brasil inteiro, e ele puxava o treino. Ele estava sempre lá ensinando a gente, passando as técnicas. A gente evoluiu em função do que ele passava para gente, eu, o Sampaio... Eu me aprimorei através dos ensinamentos dele também. Ele é muito estudioso dos detalhes, é um grande observador, sempre colaborou com as novas gerações. Foi muito importante esse contato que tivemos com ele”, avalia Miguel.  Considerado um dos maiores nomes do esporte nacional, Aurélio também foi o primeiro judoca brasileiro a conquistar duas medalhas em Jogos Olímpicos. Além do ouro em Seul, foi bronze nos Jogos de Atlanta1996. Tiago Camilo, Leandro Guilheiro, Mayra Aguiar e Rafael Silva também conquistaram duas medalhas olímpicas.  “Toda história anterior contribui para a história seguinte, o passado ajudou bastante. As conquistas do sensei Ishii, do Carmona, do Douglas Vieira, do Onmura contribuíram para a minha, porque a gente viu que podia sonhar alto. Assim como a minha conquista ajudou a do Rogério Sampaio e as demais. Hoje todo mundo sonha alto e isso é importante. Os brasileiros sabem que têm possibilidade de chegar lá”, analisa Aurélio Miguel.   Mulheres que fizeram história Já no século 21, Ketleyn Quadros entrou para o a história e para o hall dos pioneiros do judô nacional, como a primeira mulher a conquistar uma medalha olímpica. O bronze de Ketleyn, na categoria leve, na Olimpíada de Pequim-2008, também foi o primeiro pódio feminino do Brasil numa modalidade individual.  “Sensei Ishii é patrimônio do esporte brasileiro, pioneiro e nossa base de referência. Ele permitiu aos futuros atletas continuarem sonhando. É um ídolo. Foi uma enorme referência para os meus técnicos e, consequentemente, para mim também. Sensei Ishii é a nossa base, ele precisa ser presente em todas as gerações”, defende Ketleyn. Embora não haja coincidência na categoria de peso entre o primeiro homem e a primeira mulher a ganhar medalha olímpica no judô, Ketleyn e Ishii também têm algo em comum: ambos nasceram no dia 1º de outubro, com 46 anos de diferença.  Vinte anos depois da conquista de Rogério Sampaio, medalha de ouro entre os meio-leves, nos Jogos Olímpicos de Barcelona-1992, o Brasil ganhou uma nova medalha histórica. Ao sagrar-se campeã entre as peso ligeiros, em Londres-2012, Sarah Menezes encabeçou uma nova lista de pioneiros, como a primeira mulher brasileira a garantir uma medalha de ouro no judô em Olimpíadas.  “Tenho muito respeito e admiração pela sua história. Com humildade, coragem e disciplina, sensei Ishii representa muito bem o Bushidô, os valores que guiam os samurais e os judocas”, reverencia Sarah Menezes.  A segunda medalha de ouro entre as mulheres foi conquistada em casa. Rafaela Silva subiu ao degrau mais alto do pódio nos Jogos do Rio-2012 e será lembrada para sempre como a primeira judoca brasileira a conquistar os títulos de campeã olímpica e mundial.  Já Mayra Aguiar é a primeira judoca brasileira com duas medalhas olímpicas (bronze em Londres-2012 e no Rio-2016), também na meio-pesado, a mesma categoria do primeiro pódio brasileiro no judô, do primeiro ouro no masculino e do primeiro homem a conquistar duas medalhas. Essa lista de pioneiros enche o coração de Chiaki de orgulho e alegria.  “Hoje está igual o masculino e o feminino. O Brasil é muito forte no feminino, Rafaela, Sarah... São muitas conquistas e quanto mais se fizer sacrifício, mais vamos ganhar. O segredo é a cabeça, pensamento, confiança, isso que estava faltando para os brasileiros”, avalia. De geração a geração  De todas as conquistas das novas gerações do judô brasileiro inspiradas na trajetória vitoriosa de Chiaki Ishii, talvez as que mais tenham sido marcadas pelos ensinamentos do pioneiro nos pódios olímpicos são as de Tiago Camilo, medalha de prata em Sydney-2000 e bronze em Pequim-2008.  “Tudo o que aprendi com ele, levei para a minha carreira como professor. O professor Ishii tem participação nas conquistas do Tiago porque o jeito de puxar o treino foi o que eu aprendi com ele, e o estilo de luta também. O aluno, sem querer, copia o professor. Eu copiei o professor Ishii e o Tiago aprendeu as técnicas que eu ensinei. Claro que o Tiago não foi campeão porque o professor fez alguma coisa. Ele é um talento nato!”, declara o sensei Uichiro Umakakeba, o primeiro aluno a morar na academia de Chiaki Ishii, na década de 1970, e que, anos mais tarde, foi o primeiro professor de Tiago Camilo. “Sensei Ishii influenciou muito meu primeiro professor. Todos os ensinamentos passados para ele, certamente chegaram até mim. Sensei Ishii é um samurai, um pioneiro que influenciou gerações de judocas brasileiros. Ouvi muitas histórias e presenciei muitos ensinamentos que trago comigo até hoje”, reconhece Tiago Camilo. Família olímpica Com toda humildade, Chiaki concorda que, direta ou indiretamente, contribuiu para o sucesso do judô nacional.  “Sinto que contribui bastante para todas as medalhas olímpicas do judô brasileiro, pela minha técnica e pela minha história”, admite. Além dele, a família também conta com outra pioneira na história do judô. Tânia, sua filha mais velha, integrou a seleção brasileira nos Jogos Olímpicos de Barcelona, quando o judô feminino foi disputado, oficialmente, pela primeira vez em uma edição. “A professora da pré-escola avaliou que eu e minha irmã, Luiza, éramos muito quietas e ela achava que nós tínhamos que nos comunicar melhor com o meu pai. Foi aí que a minha mãe, que não sabe nada de judô, decidiu nos colocar para fazer aulas na academia dele”, conta Tânia. “Eu lembro que eu tinha medo de falar com ele. Ele tem uma voz baixa, é grande, um homem de poucas palavras, nunca mostrou afeição, não abraçava, um homem típico japonês”. O combinado de Ishii com as filhas era que elas não poderiam desistir do esporte antes de alcançarem a faixa preta. Apesar da inteligência e da flexibilidade, que faziam dela uma judoca difícil de derrotar, Luiza não seguiu como competidora e abandonou o judô assim que chegou à faixa preta. Já Tânia, decidiu ser uma atleta de alto nível, motivada por uma derrota na primeira competição feminina que disputou.  “Quando eu tinha uns 12 anos, participei, pela primeira vez, do Campeonato Paulistano Feminino. Eu lutava em campeonatos com os meninos e, por isso, pensei que não teria dificuldades para vencer. Na final, perdi por yuko para Valéria Briganti. Essa derrota me motivou a treinar mais para o Campeonato Estadual, e foram nessas três semanas que eu treinei feito uma condenada que o meu pai me deu uma atenção especial. Foi a primeira vez que a gente teve uma conexão no tatame, como pai e filha. Esse foi o momento que mudou a minha vida, os meus sonhos. A partir daí, passei a treinar para ser uma atleta olímpica”, lembra Tânia, que foi campeã pan-americana em 1986 e é casada com Mike Swain, medalha de bronze em Seul1988 e primeiro judoca norte-americano a sagrar-se campeão mundial de judô. Uma família de pioneiros.  A filha caçula, Vânia, coleciona três medalhas em Jogos Pan-Americanos – ouro em Winnipeg-1999, prata em Santo Domingo-2003 e bronze em Mar Del Plata-1995 – e participou dos Jogos de Sydney-2000 e Atenas-2004. Sobre a dificuldade de levar o sobrenome Ishii nas competições pelo mundo, ela diz:  “A cobrança na verdade era mais minha do que dele mesmo. Ele me incentivou muito, mas nunca me cobrou resultado, mas sim a minha dedicação quando escolhi ser atleta. Eu praticamente fui educada dentro do tatame, onde aprendi sobre respeito, dedicação, gratidão e educação”.  Um dos momentos mais emocionantes da carreira de Vânia, porém, aconteceu fora das áreas de competição: foi em 2016, quando ela conduziu a tocha olímpica ao lado do pai.  “Eu me arrepio ainda hoje quando penso neste momento”, revela. Chiaki Ishii sempre sonhou ter um filho homem, mas teve três filhas, três netas e um único neto. Todas as netas treinaram judô. Nascida nos Estados Unidos, a neta Sophia, filha de Tânia, chegou a sagrar-se campeã do US Open de Judô, em 2010, mas desistiu do esporte. Seu irmão caçula, Masato, também americano, tem treinado e sonhado com uma medalha olímpica, só que no basquete.  Segundo Tânia, ele já jogou numa universidade de segunda divisão do basquete norte-americano e pela Universidade de Essex, na Inglaterra, e tem o sonho de viver e jogar no Brasil. As orientações de Chiaki, certamente, serão valiosas para que o neto chegue a uma edição de Jogos Olímpicos, tal como o pai, a mãe, o avô e a tia. Bravo, calado, determinado Segundo o sensei Umakakeba, Chiaki Ishii era um professor de que muitos alunos tinham medo.  “Ele era um pouco violento para o padrão brasileiro. Era muito forte, jogava forte, o volume de treinamento dele era acima do normal. A gente treinava todo dia e toda hora, fazia treino técnico, treino físico, tudo com muita seriedade e rigor”, lembra.  Nem as filhas escapavam “Quando eu comecei a fazer judô, eu tinha medo de errar na frente do meu pai. Eu rezava para fazer a coisa certa porque meu pai gritava na frente de todo mundo. Ele gosta de intimidar as pessoas. Eu já era tímida e se ele falasse o meu nome na frente de todos os alunos, a maioria homens, eu queria me esconder em algum lugar”, recorda Tânia.  “As broncas dele no tatame eram horríveis”, confirma Luiza, a filha do meio. “Os sermões que ele dava eram com poucas palavras, era praticamente um ippon. Com poucas palavras, ele mostrava o certo e o errado, deixava a gente no lugar”, completa. Bravo e calado, dentro e fora do tatame, Ishii impressiona por sua humildade, inteligência e determinação. Segundo as filhas, ele ama ler, escrever, assistir a lutas de judô na internet e sabe tudo sobre História. Depois de transmitir seus conhecimentos para judocas de várias gerações, ele se empenhou para fazer sucesso no golfe. Tinha um campo no seu sítio, no interior de São Paulo. Mesmo quando sua carreira no judô já parecia encerrada há muito tempo, ele foi convencido pelos alunos a disputar o Campeonato Mundial de Veteranos de 2016, em Fort Lauderdale, nos Estados Unidos. Foi campeão!  “Foi muito legal poder vê-lo lutando, tinha uma torcida brasileira muito grande. Ele estava supernervoso, treinou demais, se machucou uma semana antes da competição, mas venceu. Quando ele quer fazer alguma coisa, ele leva a sério”, declara Tânia Ishii.  Apesar de ter feito uma cirurgia no pé direito, depois do Mundial, Chiaki Ishii sonha voltar aos tatames.  “Ele tem se dedicado todos os dias à fisioterapia, fortalecendo o corpo. Pois os sonhos da juventude ele realizou, com a bênção de Deus e o apoio da minha mãe e de todos os amigos que o cercam”, informa Vânia.  A conquista mais recente, que mexeu com a emoção do primeiro medalhista do judô brasileiro, foi a sua entrada no Hall da Fama do COB.  “Três anos atrás, ele quase morreu. Eu larguei tudo porque achei que fosse a última vez que eu ia ver o meu pai. Ele faz parte da história do esporte brasileiro e poder ser reconhecido dessa maneira, enquanto está vivo, é muito importante”, declara Tânia. “Fiquei muito grata por ele ter entrado no Hall da Fama ainda em vida. Muito grata mesmo. Ver meu pai feliz não tem preço. Ele fez história pelo Brasil e, no entanto, é mais condecorado no Japão”, observa Vânia. O melhor do Brasil E em meio a tantos campeões e medalhistas olímpicos e mundiais, quem é o maior judoca brasileiro de todos os tempos na opinião de Ishii?  “Aurélio Miguel ganhou medalha de ouro, mas Carmona também foi um grande destaque, era muito forte. Tem Rafael Silva, Douglas Vieira, Tiago Camilo, todos ótimos atletas. O Rogério Sampaio também foi campeão. Rogério eu castiguei mais, treinava muito com a seleção. Treinou bastante para ganhar medalha de ouro. Ele era o destaque, super-herói o Rogério. Mas o melhor de todos é o Shiozawa, porque foi o único que conseguiu me derrotar no Brasil. Eu estava imbatível e ele me derrotou com um ippon. Sensei Shiozawa tinha um judô muito inteligente, faltou ritmo para ele ganhar uma medalha olímpica”, conclui Chiaki Ishii, homenageando o pioneiro Lhofei Shiozawa, primeiro brasileiro a participar de uma edição de Jogos Olímpicos, em Tóquio1964, quando se classificou em quinto lugar. 
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Resultados em Destaque

COMPETIÇÃO RESULTADO PROVA

Campeonato Pan-Americano de Judô Londrina 1970

1º Lugar meio-pesado

Campeonato Mundial de Judô Ludwigshafen 1971

3º Lugar meio-pesado

Jogos Olimpícos Munique 1972

3º Lugar Meio-pesado - 80Kg até 93Kg
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