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Walter Carmona

MODALIDADE

Judô

DATA E LOCAL DE NASCIMENTO

21/06/1957 | São Paulo, SP

JOGOS OLÍMPICOS

1980 | 1984 | 1988

CONQUISTAS

2

Medalhas de Bronze

Jogos Olímpicos Los Angeles 1984 Campeonato Mundial Paris 1979

Biografia

O menino tímido que fez história no judô e virou referência

Primeiro brasileiro nato a conquistar uma medalha em Campeonatos Mundiais de Judô, bronze entre os médios nos Jogos Olímpicos Los Angeles 1984, porta-bandeira da delegação brasileira na Cerimônia de Abertura em Seul 1988, tetracampeão sul-americano, tetracampeão pan-americano, Walter Carmona é um dos maiores nomes do judô nacional, tanto por suas conquistas quanto por sua liderança.  

Diferentemente da maioria dos atletas olímpicos, ele não demonstra saudosismo nem ligação emocional aos seus feitos no esporte. Na verdade, não guarda lembrança de detalhes ou datas dos acontecimentos, muito pelo desapego, outro tanto pela falta de memória causada pela dislexia, descoberta já na maturidade. 

“Quando eu era mais jovem, sempre que escutava as pessoas com mais idade dizendo: ‘No meu tempo era assim...’, dava uma peninha porque eu pensava que aquelas pessoas viviam no passado. Achava aquilo chato. Eu não queria ser assim. Não tenho uma foto, não tenho nada. Nem sei direito aonde está a minha medalha olímpica, mas a minha esposa sabe. É uma coisa interna minha, bola para frente. Cheguei até aqui, vamos para a próxima. Nunca quis ficar olhando para trás, não”, explica ele.    



Hall da Fama 

Apesar do desprendimento, Carmona valoriza cada uma de suas conquistas e se emociona ao falar sobre a sua inclusão no Hall da Fama do COB.  

“Eu tive duas grandes alegrias fora do tatame na minha vida no judô: a primeira foi ser o porta-bandeira na Cerimônia de Abertura dos Jogos Olímpicos Seul em 1988. Foi bárbaro para mim, uma coisa sensacional. E a segunda, agora, entrar para o Hall da Fama do Comitê Olímpico do Brasil, num grupo tão seleto de atletas. Lá só tem feras de todos os esportes, é muita gente e você ser lembrado é bárbaro. Isso me marcou muito, saí agradecendo para todo mundo que se lembrou do meu nome. Gratidão é tudo! Eu não esqueço essas coisas, sou muito grato por esses dois grandes prêmios que eu recebi fora do tatame. Fico muito feliz, me sinto lisonjeado. Fico pensando na alegria de falar sobre isso para os meus filhos e netos”, celebra. 

Tímido 

Terceiro filho de uma família composta por três meninas, Carmona nasceu em São Paulo em 21 de junho de 1957. Filho do industrial Pedro José e da dona de casa Nair, ele sempre foi muito tímido. “Meu pai tinha uma empresa de rádio para automóvel. Depois, quando os carros começaram a vir com rádio e esse mercado se extinguiu, ele teve uma metalúrgica, uma empresa de molas. Ele sempre teve espírito de empresário”, conta. “Toda essa parte de ser introvertido é porque a gente era muito humilde, eu vim da classe média baixa. Tudo o que eu conheci foi através do esporte.” 

O judoca lembra de que costumava passar férias na casa do tio, que era peixeiro. “Eu e o meu primo saíamos numa charrete vendendo peixe na rua. A gente ia gritando: Olha a pescada boa! Sardinha! Sardinha! Hoje eu falo para a minha mulher que eu já vendi peixe de charrete e ela fala que é mentira porque foi só nas férias”, relata.  

“Carmona vai com os outros” 

O menino Walter nunca havia praticado esportes porque era uma espécie de “inimigo da bola”. “Se rolar uma bola para mim, vai ser horrível. Eu nunca tive talento para absolutamente nada: handebol, basquete, vôlei, futebol, absolutamente nada. Eu nunca torci para time nenhum. Nunca me fascinou”, revela. 

O interesse pelo esporte surgiu aos seis anos, em 1963, quando um coleguinha da vizinhança começou a treinar judô na academia de Dante Kanayama. “Ele foi, e eu fui também. O Kanayama era um dos discípulos do sensei Hikari Kurachi, do Japão. Eu era uma criança muito introvertida e, no começo, foi bastante complicado, porque eu não me sentia à vontade no tatame”, lembra. “Mas o Kanayama sempre proporcionou um ambiente muito agradável para as crianças na academia dele, e eu fui ficando, fui treinando. Tinha esses campeonatos de clube. Com 7, 8 anos, eu ganhei a minha primeira medalha de bronze num desses campeonatos. Essas coisas foram me motivando, me animando para continuar no esporte”.  

Depois de vencer os Campeonatos Paulistano e Paulista em 1970, Carmona se aninou ainda mais. “Passei a treinar mais forte. Eu saia para correr na rua, pela manhã bem cedo, antes de ir para a escola. Ainda estava escuro e eu me lembro do pessoal gritando: ‘Pega ladrão!’ Aquilo era totalmente diferente para a época. Ainda mais uma criança correndo sozinha na rua. Eu fui me dedicando mais e as coisas foram acontecendo”, orgulha-se.  

O judô como prioridade 

De treino em treino, de medalha em medalha, Walter Carmona se viu apaixonando pelo judô. “Você se apaixona por aquilo e acaba abrindo mão de todas as outras coisas, até dos estudos, infelizmente. O judô é um esporte em que você treina em dois períodos e conciliar com os estudos é muito difícil”, explica.  

“Poucos, judocas, como o Wagner Castropil (peso médio que representou o Brasil nos Jogos Barcelona 1992 e se formou em Medicina) conseguem. Eu fiz Engenharia, mas confesso que não fui dos melhores engenheiros. Você tem que abrir mão de muita coisa, não tem jeito. E quando você começa a abrir mão dessas coisas que são boas e prazerosas, você percebe que está a fim mesmo de fazer judô, de buscar os resultados”.  

Uma das grandes dificuldades da época era a falta de treinos fortes com um bom número de atletas. “Você tinha que caçar treinos. A gente treinava no Yamasaki, na Federação (Federação Paulista de Judô), na academia Ishii. Era legal porque se conhecia atletas de várias academias. A gente se juntava em pequenos grupos para poder fazer um treino razoável. Mas, mesmo assim, às vezes, você repetia o treino duas, três vezes com o mesmo atleta, porque tinha poucoa atletas no treino. Era bem limitado”, informa. 

“Nossa única referência era o Chiaki Ishii, que, em 1972, trouxe primeira medalha do nosso judô em Jogos Olímpicos (bronze em Munique)”. O japonês naturalizado brasileiro também foi pioneiro no pódio de um Campeonato Mundial. Foi bronze, em 1971, em Ludwisgshsfen, na então Alemanha Ocidental.  

Em 1974, Carmona passou a treinar na academia de Chiaki Ishii. “Ele era um atleta competidor, bastante técnico, tinha golpes muito fortes, como o tai-otoshi e o o-soto-gari, que mais ou menos combinaram com os meus. A gente se esforçava para ter golpes tão bons como os dele. Ele é um cara muito legal. Quando vinham colegas dele do Japão, ele abria a academia e pedia para eles passarem a técnica para a gente”, destaca. “Quem também ajudou muito o judô brasileiro foi o Onodera (sensei Ikuo Onodera, técnico da seleção brasileira nos Jogos Pan-americanos de 1975 e 1995 e nos Jogos 1976), que tinha um conhecimento bom no Japão, nessa parte de intercâmbio”, emenda.  



Nem carro nem medalha 

Em 1976, aos 19 anos, Walter foi convocado pela primeira vez para a seleção. A equipe disputaria o II Campeonato Mundial Júnior, em Madri. “Naquela época, a Confederação Brasileira de Judô (CBJ) não tinha recursos para bancar a viagem dos atletas”, pontua. “Eu tinha uma Brasília e vendi meu carro para poder ir para a competição. Cheguei lá e perdi na primeira luta! Voltei para casa sem a medalha e sem a minha Brasília. O ginásio era um velódromo, eu ficava dando volta naquele velódromo pensando em desistir do judô. Quando passou aquele momento de emoção, voltei para o Brasil e falei: 'Preciso treinar mais'."  

Além dos treinos no tatame da academia de Ishii, Carmona continuou correndo todos os dias, agora em pistas de atletismo, e fazendo musculação em clubes como Pinheiros, Sírio e A Hebraica.  

“O lema era quanto mais treinar, melhor. Pode ter alguém que treine como eu, mas mais do que eu não. Luta é uma quebradeira, seu corpo está sempre quebrado. Você acordava de manhã e lutava para sobreviver até o final do dia. Sentava na beirada da cama e falava: Será que hoje eu vou conseguir? Ficava aqueles cinco minutos, aí levantava, o corpo já ia se adaptando e você começava a treinar. A nossa rotina era assim”, divide. 

“O Carmona é talvez o grande ídolo do Aurélio Miguel, que é o maior judoca brasileiro de todos os tempos. Ele aprendeu com o professor Ishii essa coisa do treinamento intenso, do treinamento duro, e gerações depois dele vieram também com esse mesmo conceito de que não existe resultado sem muito trabalho”, avalia o campeão olímpico Rogério Sampaio, ouro entre os meio-leves nos Jogos Olímpicos Barcelona-1992.  

“Aqui no Brasil, ele foi o meu grande ídolo. O Carmona é um exemplo. Eu me lembro, quando a gente era novinho, a gente ia treinar lá no Pinheiros de manhã. Ele fazia o treinamento conosco, depois punha o terno e a gravata e ia para a indústria dele trabalhar. À noite, estava lá treinando novamente. Depois do treino, ele continuava fazendo uchikomi (treino de repetição e aperfeiçoamento técnico). Ele sempre foi uma referência positiva para nós todos, de perseverança, de persistência, de disciplina, de dedicação, de empenho, de que só se consegue as coisas se dedicando. Isso foi muito importante para mim”, exalta o campeão olímpico Aurélio Miguel, ouro entre os meio-pesados em Seul 1988 e bronze em Atlanta 1996.  

O único sem medalha no Pan 

Nos Jogos Pan-americanos de San Juan, Porto Rico, em 1979, o judô do Brasil foi um dos destaques. A equipe conquistou sete medalhas em oito categorias: quatro ouros, uma prata e dois bronzes. “Eu fui o único brasileiro que não trouxe medalha. Voltei arrasado e até um pouco envergonhado. Que decepção, que fracasso! Voltei e passei a treinar ainda mais”, lamenta Carmona.  

Meses depois, Walter Carmona se preparava para disputar o Campeonato Mundial, em Paris, quando começou a ser incomodado por uma dor de dente. “Quase que eu não fui a esse campeonato”, divide. “Eu tinha um dente do siso me atrapalhando bastante. Pensei: sou tão azarado que eu vou chegar lá, em Paris, e esse dente vai começar a doer”. 

O judoca decidiu extrair o dente, mas a dentista deu um ponto apertado demais e a dor acabou ficando ainda mais forte depois da extração. “Voltei ao consultório me queixando de dor, e ela dizia que era assim mesmo, me dava remédio e me dispensava”, diz.  

Carmona dividiu com a mãe sua intenção de desistir de participar do Mundial por conta da dor. Ela o aconselhou a voltar ao consultório pela última vez e pedir para que a dentista retirasse o ponto que o estava incomodando. Ele seguiu o conselho. “Minha boca nem abria porque estava tudo inflamado. Eu forcei, abri a boca e ela tirou o ponto. Foi um alívio indescritível. A dentista começou a chorar. Foi assim que venci a dor e fui ao Mundial, quase que eu não ia”, conclui.  

Sem conhecer os adversários 

Livre da dor, o judoca paulista foi para Paris, França, no início de dezembro de 1979, sem saber o que esperar. “A gente saía do Brasil para o Campeonato Mundial, que era de dois em dois anos, tinha o Campeonato Pan-americano, o Sul-americano e só. Não tinha esse intercâmbio que tem hoje, esse conhecimento entre os atletas. A gente conhecia o cara na hora que começava a luta. Fui para Paris sem conhecer os adversários. Eu sabia que todos eles eram fortes, mas só conhecia alguns detalhes sobre eles, como se o adversário era destro ou canhoto”, explica. 

“Naquela época, não havia patrocínios. Na maioria das vezes nossos pais ajudavam com as finanças, tipo complementação da alimentação. Hoje o tratamento é diferente, os atletas participam de mais competições, coisa que não acontecia na época”, reforça o medalhista olímpico Luiz Onmura, bronze do peso leve nos Jogos Los Angeles 1994.  

“Na geração do Carmona houve pouco intercâmbio. Não tinha essa facilidade com tantas competições como hoje e isso, lógico, atrapalha. Aquela era uma geração fantástica, que podia ter ido muito mais longe”, completa o vice-campeão mundial Aurélio Miguel. 

Enfim, no pódio! 

Ao conquistar o bronze em Paris, Carmona entrou para a história como o primeiro brasileiro nato a subir ao pódio num Campeonato Mundial. “O Carmona sempre foi muito forte fisicamente, muito técnico e guerreiro, sangue nos olhos. Ele abriu o caminho com a conquista das suas medalhas, mostrando ao mundo o valor do judô brasileiro”, analisa o sensei Geraldo Bernardes, ex-técnico da seleção brasileira que comandou a equipe no Mundial de Paris.  

“Curiosamente, nos Jogos Pan-americanos que antecederam o Campeonato Mundial de 1979, o único atleta que não foi medalhista foi exatamente o Carmona. Na sequência, fomos todos muito motivados para o Campeonato Mundial, e o único medalhista foi exatamente o Carmona, realizando belos combates com os melhores atletas do mundo da sua categoria de peso”, contrapõe Luiz Shinohara, ex-técnico da seleção, que foi ouro entre os ligeiros no Pan 1979, em San Juan, Porto Rico.