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Nelson Pessoa

MODALIDADE

Hipismo Saltos

DATA E LOCAL DE NASCIMENTO

16/12/1935 | Rio de Janeiro, RJ

JOGOS OLÍMPICOS

1956 | 1964 | 1968 | 1972 1992 |

CONQUISTAS

1

Medalhas de Ouro

Jogos Pan-americanos Winnipeg 1967

1

Medalhas de Prata

Jogos Pan-americanos Winnipeg 1967

Biografia

O brasileiro que desbravou a Europa a cavalo

Aos 85 anos, ele talvez tenha sido um dos participantes mais experientes dos Jogos Olímpicos Tóquio 2020. Comandou a conquista da medalha de prata da Austrália no CCE (Conjunto Completo de Equitação) por equipes. Andrew Hoy, integrante da equipe australiana, ficou com o bronze no individual. Sem direito a medalhas por ser técnico, o carioca Nelson Pessoa Filho brilhou no Japão e mostrou que a sua vocação e talento para as disputas no hipismo permaneceram intactos com o passar dos anos. Feliz, embora exausto, foi como ele se sentiu após sua nona edição olímpica. Foram cinco como atleta, três como técnico e uma como o pai, técnico e professor do campeão olímpico Rodrigo Pessoa.   

Campeão da Copa das Nações, cavaleiro com maior número de vitórias no Derby de Hamburgo, campeão europeu, quatro vezes campeão brasileiro, tricampeão do Derby de Hickstead e vencedor de aproximadamente 150 GPs na Europa, Neco acumula conquistas. Mas algumas são especiais: o título de campeão mundial em Roma 1998, o tricampeonato na Copa das Nações (1998, 1999 e 2000) e a medalha de ouro nos Jogos Atenas 2004 conquistados pelo filho superam todas as suas vitórias -ele não se importa de ser reconhecido como o pai de Rodrigo Pessoa. 



O menino de Bangu 

Primeiro cavaleiro sul-americano a se instalar na Europa para competir, ele diz que, apesar de ter feito história num “esporte de gente rica”, nunca se impressionou com a popularidade. “A fama não subiu à minha cabeça. Eu quero ser lembrado como o menino de Bangu”, avisa Nelson, fazendo referência a um dos bairros mais populosos e quentes da zona oeste do Rio de Janeiro, onde seu pai tinha uma propriedade nos anos 1940. “Era um lugar realmente agradável”, completa.   

Medo de cavalo 

Quem analisa a trajetória de Nelson Pessoa pode se espantar ao saber que, na infância, ele tinha receio de se aproximar dos cavalos. O pai, Nelson Falcão Pessoa, era casado com Antonieta, com quem teve quatro filhos, duas meninas e dois meninos, sendo Nelson o terceiro. Atuando como consultor imobiliário numa companhia de extensão territorial que loteou toda a Barra da Tijuca, Nelson-pai adquiriu seu primeiro cavalo aos 35 anos. Em pouco tempo, tornou-se membro da Sociedade Hípica Brasileira.  

“Eu comecei a montar com seis, sete anos e não gostava porque tinha medo. De um momento para o outro, dominei esse medo e nunca mais tive receio do esporte, de saltar, de nada”, lembra Neco que, como bom carioca de Copacabana, gostava de ir à praia, onde nadava e jogava futebol. “A paixão pelos cavalos superou tudo. Nada superava os cavalos”, enfatiza. 

Incentivado pelo pai, que sempre lhe presenteou com bons cavalos, Nelson Pessoa começou a participar de concursos de equitação muito cedo, aos 10 anos. “Eu era menino, era o único menino que montava. Naquela época as competições eram só para adultos, nem tinha categoria para a minha idade. Eu seria um júnior ou mirim hoje em dia, naquela época não existia. Eu montava pela altura das competições de acordo com a minha capacidade – 1,10m, 1,20m, 1,30m. Eu segui isso até os 18 anos”, conta.  “Eu tinha um professor, e meu pai era muito severo, exigia de mim, muita disciplina. Desde garoto, eu ganhava as provas dos adultos. Aquilo me deu uma ambição, um gosto pelo esporte”, revela Neco.  

Competições internacionais 

Em 1950, então com 14 anos, Nelson Pessoa participou de um concurso internacional no Brasil com equipes de Chile, Argentina, Portugal e Brasil. “Eu já tinha um cavalo excepcional, mas não obtive nenhuma vitória porque eu não tinha nem o direito de montar por causa da idade”, lamenta.  

Aos 16 anos, Neco conquistou o título do Campeonato Brasileiro pela primeira vez. Aos 18, foi convocado para a equipe brasileira de hipismo. “Passei a integrar a equipe nacional, que era composta por militares, eu era o único civil.  Já tinha adquirido uma categoria máxima no Rio de Janeiro, já tinha sido campeão brasileiro algumas vezes e saí pela primeira vez para uma viagem com a nossa equipe nacional para a Argentina”, recorda. 

“Estocolmo 1956” 

Os Jogos Olímpicos de 1956 foram disputados em Melbourne, na Austrália, mas as competições de hipismo, denominadas Jogos Equestres, aconteceram em Estocolmo, na Suécia. “Havia uma lei sanitária em Melbourne que proibia a entrada de animais de outros países sem uma quarentena de seis meses a um ano. Por isso, eles fizeram os Jogos Equestres na Suécia”, explica Pessoa, que fez sua estreia olímpica naquela edição.  

A equipe brasileira ficou em décimo lugar. Neco foi o 33º no individual. “Foi o primeiro concurso que eu fiz na Europa. Depois fizemos uma turnê pelo continente europeu”, pontua. 

Copa das Nações 

Um mês depois dos Jogos, a equipe brasileira, composta pelo general Eloy Menezes, pelo coronel Renyldo Guimarães Ferreira e por Nelson Pessoa, foi para a Alemanha disputar a Copa das Nações no Concurso de Saltos Internacional em Aachen, considerada a meca do hipismo mundial.  

"Aachen é o Maracanã do hipismo”, informou o coronel Renyldo Guimarães Ferreira, em entrevista ao site da Confederação Brasileira de Hipismo. “Quando a gente chegou lá, o Herr Haupt Schmidt, que era o organizador do torneio, tinha tudo que era bandeira, menos a brasileira. Eu falei: "Mister Haupt, onde está a bandeira brasileira? Ele respondeu: ‘Nós só botamos aqui a bandeira daqueles que têm a possibilidade de vencer’. E se nós vencermos? Ele respondeu: ‘É muto difícil, meu capitão’. Logo retruquei: É difícil, mas não é impossível! Então fomos lá e ganhamos", lembra Renyldo, na mesma entrevista.  

Ele contou que os organizadores tiveram que improvisar uma bandeira. “Puseram o retângulo verde, costuraram um losango amarelo e uma bolota azul", acrescentou o cavaleiro de quatro Jogos Olímpicos (Londres 1948, Helsinque 1992, Estocolmo 1956 e Roma 1960). 

“Não tinha bandeira, não tinha hino. Foi uma confusão no protocolo do concurso, porque eles não esperavam. Era a primeira vez que vinha um país sul-americano saltar em Aachen. É um concurso antigo, completou 100 anos no ano passado. Eles não esperavam que uma equipe do Brasil fosse se tornar campeã”, recorda Neco. 

Sonhando com o sucesso 

Nelson Pessoa divide que o seu projeto de vida no hipismo nasceu depois dos Jogos Olímpicos, quando a equipe brasileira fez uma viagem pela Europa. “Quando eu vi os cavaleiros atuando como os pilotos de Fórmula 1, que vão de cidade em cidade e ficam famosos, aquilo se tornou o meu sonho, mas era muito difícil. Há 60 anos, vir para a Europa era difícil. Os meios não eram como hoje. Para atravessar o Atlântico de avião eram 24 horas, de navio, 15 dias. Hoje em dia existem na Europa 30, 40 cavaleiros brasileiros, argentinos e uruguaios que circulam, vão para o Brasil, voltam para cá, vão para a América. Os cavalos embarcaram hoje, amanhã já estão em Tóquio. Naquele tempo, o transporte dos cavalos era uma arca de Noé”, compara.  

No ano seguinte, a equipe brasileira repetiu a mesma turnê. “Aí, eu tomei gosto por essa profissão. Ainda era estudante no Brasil e fiquei com os cavalos na cabeça e só pensava em ir para a Europa”, revela Nelson.  

Jogos Pan-americanos de Chicago 

Em 1959, Nelson Pessoa estreou nos Jogos Pan-americanos de Chicago, nos Estados Unidos. A equipe era composta por ele mais Renyldo Ferreira, Francisco Rabelo Leite Neto e Antônio Carlos Carvalho. “Nós tínhamos uma equipe militar, e eu era o único civil que poderia igualar a categoria técnica dos militares”, reconhece. O Brasil conquistou a medalha de prata na disputa de saltos por equipe.  

A proposta que mudou a história 

O convite feito pela francesa Arline Givaudan, amazona e esposa de Léon Givaudan, neto do fundador dos perfumes Givaudan, líder mundial na fabricação de perfumes e aromas, em setembro de 1960, era só o que faltava para Neco fazer as malas e se mudar para a Europa.  

“Aceitei imediatamente! Ela montava a cavalo e estava no Brasil, voltando para a Europa, onde tinha instalações na casa dela, em Geneve, na Suíça. Eu aceitei com o maior prazer e fiquei nove anos montando meus cavalos e os cavalos dela, ajudando nas competições”, recorda. 

Pessoa esclarece que as condições para a prática do hipismo no Brasil eram boas, mas ele queria ir além. “Nossos clubes hípicos são confortáveis, mas o esporte e a competição internacional na América do Sul e, principalmente, no Brasil, naquela época, 60 anos atrás, eram muito amadores. Eu tinha acompanhado os concursos internacionais por fotografia e quando vinha Jogos Olímpicos etc., pude constatar que já era um esporte em que na Europa existiam profissionais. E eu queria fazer parte daquele circo”, explica.  



Lua de mel entre os cavalos 

Além dos detalhes do acordo com Arline Givaudan e dos preparativos para a mudança, Neco também teve de providenciar o seu casamento com a então namorada Regina de Paula. A cerimônia foi realizada em 19 de dezembro de 1960, e os dois embarcaram juntos para a nova vida na Europa, em 5 de janeiro de 1961. 

“Para a nossa viagem, tudo já estava preparado. Mas, de repente, Neco entrou uma noite em casa e disse que a nossa programação tinha mudado e que iríamos viajar de navio de carga com um cavalo... Eu deveria perceber que aquele era um aperitivo do que seria a nossa vida. Ele, os cavalos e eu”, compartilhou Regina, no livro “Você será um cavaleiro, meu filho”, de Sabrine Delaveau, disponível na internet.   

A lua de mel aconteceu a bordo de um navio de meia carga, com três cavalos no porão: Gran Geste, Oro Fino e Orfeu Negro. “Minha esposa não era e não é uma pessoa de cavalos. Foi bem estranho. Não sei como ela não saltou lá no mar para voltar a nado”, brinca Neco.  

Os feitos de Nelson Pessoa eram devidamente relatados nos textos do coronel Heitor César Pimenta, na Revista Centauro. “Era a nossa Revista Veja ou o Jornal O Globo da época com relação ao hipismo. O coronel Pimenta escrevia muito bem, tinha um texto muito bom e sobretudo apaixonado. Ele punha a paixão, o coração dele na caneta. Ele sempre descrevia o Neco e eu, então, como um menino apaixonado pelo esporte, me encantava com tudo o que ele escrevia sobre as conquistas que o Neco fazia”, detalha Heraldo Grilo Nunes, grande amigo de Neco e elaborador de projetos de hipismo. 

Apesar de todo o glamour de estar na Europa, praticando um esporte elitista, Neco não nega as dificuldades que enfrentou nos seus primeiros anos como desbravador no velho continente. “Foi difícil porque não tinha patrocinador. A gente vivia dos prêmios apenas. Se não ganhasse, não comia”, admite. Felizmente, os resultados sempre foram muito bons. 

Um dos meus meios de ganhar a vida era dar lições de hipismo, mas não oficialmente. “Eu não poderia ser professor porque isso era considerado como profissional (o que o impediria de participar de competições amadoras como Jogos Olímpicos e Pan-americanos). Eu dava lições privadas para as pessoas e tinha os prêmios de concurso. Eu não vendia os cavalos porque eu precisava deles para ganhar as provas. Tinha muito cavaleiro que se dedicava à compra e venda de animais de concurso hípico e ganhavam a vida deles assim, mas eles não tinham ambição esportiva, ao contrário de mim. Nos primeiros dez anos, todos os cavalos oram retirados e viveram no campo depois até morrer. Dos cavalos que eu usei entre 1961 e 1970, alguns eram meus, outros eram da senhora Givaudan, e ela também não vendia porque era rica, o marido dela era presidente da essência de perfumes Givaudan”, detalha. 

Tóquio 1964 

Todo o sacrifício para se manter como amador valeu a pena. Em 1964, Neco foi o único representante brasileiro nos Jogos de Tóquio 1964 no hipismo. A experiência foi bem diferente da primeira vez. 

“Nós tivemos os Jogos Equestres em Estocolmo, que foram reduzidos, eram só para os esportes equestres. Mas em 64, no Japão, eu pude experimentar toda a emoção do evento”, relata. “Os Jogos Olímpicos são um concurso com uma grande formalidade: acontecem a cada quatro anos, tem uma seleção nacional, são só três cavaleiros de cada país, tem uma série. Aquele desfile e aquele cerimonial já são uma coisa maravilhosa. Esse espírito olímpico dá uma ênfase à competição que não existe nas competições normais, talvez um pouco no Campeonato Mundial, mas Olimpíada é Olimpíada. O sonho de qualquer atleta é um dia participar dos Jogos Olímpicos, e o sonho maior é ganhar”, analisa Nelson Pessoa, que competiu com Huipil, um dos cavalos da senhora Givaudan.   

No Japão, ele conquistou sua melhor classificação olímpica como atleta: quinto lugar na competição individual de saltos. O que faltou para a medalha de bronze? “Eu estava sozinho, não tínhamos equipe, tinha apenas o chefe de equipe que veio do Brasil, ele se chamava Paulo Borba. Eu não tinha os recursos necessários, fui da Europa para lá, me faltou um pouco de ajuda. Eu era jovem ainda e a minha parte equestre, hípica, para o meu cavalo faltou um pouco de assistência. Os outros eram as equipes alemãs, italianas, inglesas, eles têm uma assistência fantástica, como nós temos agora. Nós temos veterinário, chefe, diretor, treinador... É uma outra realidade. Ali eu estava de individual, de brasileiro que desembarcou e disse: Dá licença. Tem lugar para mim aí?”, detalha.   

Referência na Europa 

Nelson Pessoa já estava bem estruturado na Suíça quando a Confederação mandou dois jovens brasileiros: Antônio Alegria Simões e José Roberto Fernandes para treinarem com ele. José Reynoso foi para a Europa disputar o Campeonato Europeu de juniores e também acabou ficando por lá.  

“Ele foi o desbravador do hipismo brasileiro na Europa. O hipismo era muito pouco conhecido no Brasil, era um esporte que não era muito popular. Por ter vindo para a Europa e ter feito uma carreira aqui, ter chamado muitos brasileiros a vir para a Europa se aperfeiçoar e depois continuar as carreiras, ele foi o padrinho do hipismo brasileiro”, sentencia o campeão olímpico Rodrigo Pessoa, filho de Neco. 

“O fato de o Neco ter se estabelecido na Europa possibilitou que toda uma geração de jovens fosse conviver e aprender com ele”, destaca o empresário Jorge Gerdau Johannpeter, grande incentivador do hipismo brasileiro.  

“Fui assistir a alguns concursos internacionais e vi que todo mundo ia falar e aprender com ele: americanos, italianos, franceses, alemães etc. Só o Brasil não aproveitava o saber de Neco! Quando eu fazia parte da CBH (Confederação Brasileira de Hipismo), mandamos alguns jovens para aprender com ele. Isso possibilitou formarmos toda uma geração de jovens que beberam do saber dele. Essa primeira geração pós-Neco foi formada pelos multiplicadores da cultura hípica no Brasil. O valor disso é impagável. Foi uma bênção para o hipismo brasileiro. Viva Neco!”, ressalta Gerdau, que é pai do medalhista olímpico André Johannpeter, bronze em Atlanta 1996 e Sydney 2000.  

“O Neco foi um dos melhores ou mais importantes professores que eu tive. Difícil dizer qual foi o melhor, pois a gente aprende com todos, mas o Neco, sem dúvida, mudou minha experiência, minha carreira, meu conhecimento hípico, principalmente com o Calei, que sempre foi um cavalo difícil. Ele me ajudou muito a transformá-lo. Eu o peguei em 1994, depois fiz temporadas com o Neco, e ele me ajudou muito a acertar o trabalho de base, mas principalmente embocaduras e trabalho de distensão, porque o Calei era um cavalo bastante especial”, destaca André Johannpeter. 

“Sua indiscutível competência, seu talento e sua competitividade são os três fatores sem os quais Nelson Pessoa não teria obtido o sucesso que ele teve no ambiente altamente desafiante do hipismo europeu. Seu pioneirismo e sua competência consolidaram seu nome e abriram as portas do tradicional continente europeu para os cavaleiros brasileiros”, reforça o Course Designer internacional e conceituado preparador de cavalos novos Hélio Pessoa, irmão de Neco. 

Jogos Pan-americanos Winnipeg 1967 


“Em 1967, o Comitê Olímpico Brasileiro nos deu a destinação de irmos representar o Brasil nos Jogos Pan-americanos em Winnipeg. O COB nos deu todos os meios para sairmos da Europa e competir no Canadá”, recorda Pessoa.  

A equipe formada por Neco, Antônio Simões e José Reynoso, que estavam na Suíça, mais Renyldo Guimarães, que se juntou à equipe na Europa, conquistou a inédita medalha de ouro no Pan. “Nessa época, eram quatro cavaleiros que montavam na Copa das Nações. Os Jogos Pan-americanos foram a nossa primeira grande competição olímpica”, relata Neco, que ficou com a medalha de prata na disputa individual.   

México 1968 e Munique 1972 

Lúcia Faria e José Reynoso Fernandez, alunos de Neco, formaram, com ele, a equipe de hipismo que representou o Brasil nos Jogos Olímpicos México 1968, terminando na sétima posição. “Tínhamos uma equipe particular, privada. Eles moravam em Geneve comigo”, compartilha.  

Montando Rush Du Camp, Lúcia ficou na 12ª colocação na disputa individual. Nelson Pessoa foi o 16º. “Nos Jogos, ir para a final e chegar entre os 10 ou 20 primeiros já é uma vitória”, comemora ele. 

Em Munique 1972, Nelson Pessoa competiu apenas no individual e não foi muito bem, ficando com a 39ª posição. “Tinha um cavalo muito difícil”, diz ele, referindo-se a Nagir.  

Pioneiro nos patrocínios 

Quando Arline Givaudan parou de montar, Pessoa teve que buscar alternativas. “Ela parou de montar porque fazia outras coisas, gostava de esquiar, era um pouco socialite. Esporte equestre ela fez durante alguns anos, depois parou, não quis mais comprar cavalos, e eu fiquei sozinho. Tinha que conseguir cavalos, comprar cavalos. Eu, como estrangeiro na Europa, tive dificuldades porque as pessoas não davam cavalo para um brasileiro montar. Eu vivia na Suíça, os proprietários suíços davam cavalos para os cavaleiros suíços. Aí, eu fui viver na França, e os proprietários franceses davam os cavalos para os cavaleiros franceses”, explica.  

A solução encontrada transformou Neco num cavaleiro profissional, competindo sob as cores de uma grande empresa. Mais uma vez, ele demostrou pioneirismo. A experiência em publicidade, adquirida antes no Brasil, foi fundamental para alcançar o apoio de que precisava para continuar a viver do hipismo.  

“Eu tive uma iniciação quando jovem, com 20 anos, em publicidade, na Standard Propaganda, comecei a minha vida fazendo isso. Eu tinha uma namorada, que era filha do presidente da Standard Propaganda, e comecei a me iniciar nessa profissão. Aqui, na Europa, encontrei os pilotos brasileiros como Emerson Fittipaldi e Nelson Piquet. Eu via a infraestrutura que eles tinham e falei: tenho que montar isso com os cavalos. Comecei a trabalhar isso. Consegui o patrocinador e os meus cavalos começaram a levar Moët & Chandon no nome: Moët & Chandon Imperial, depois Mister Moët, Miss Moët etc. Tínhamos um caminhão, tínhamos uma tenda Moët & Chandon para receber as pessoas. A marca francesa gostou dessa promoção e só paramos porque houve uma lei federal na França proibindo o patrocínio de empresas de álcool e tabaco no esporte. Eu fiquei com eles até 95”, festeja.  

“Ele percebeu a possibilidade de associar o hipismo a empresas que quisessem usar o esporte como um instrumento de divulgação de marca. Hoje, isso é comum, corriqueiro. Ele foi um pioneiro no mundo. Essa visão singular ele teve naquele momento, no início dos anos 70, quando isso não era comum. A parceria com a Moët & Chandon foi um grande boom na Europa, pelo menos no hipismo, nunca ninguém tinha pensado nisso. Neco foi um inovador também nesse sentido. E deu um resultado extraordinário, porque hoje praticamente 95% dos cavaleiros do padrão do topo têm ao seu lado empresas que investem, usando o esporte como elemento de promoção de suas respectivas marcas. Isso foi um grande diferencial dele no hipismo mundial”, avalia Heraldo Nunes, amigo de Neco. 



Encantador de cavalos 

A relação de Nelson Pessoa com os cavalos é singular. “Eu adoro os animais, eles me correspondem, tenho uma paixão absoluta por eles. O cavalo não fala, você tem que adivinhar tudo por ele, como um pediatra tem que adivinhar o que a criança tem. É um mistério absoluto. Compreender o que é um cavalo é uma experiência mais que esportiva, é uma relação humana”, ele filosofa. 

Essa habilidade em lidar com os cavalos valeu a ele o apelido de Le soucier brésilien (O feiticeiro brasileiro). “Chamaram ele de encantador de cavalos quando ele morava na França porque, muitas vezes, mandavam para ele cavalos que tinham dificuldades, que ninguém conseguia ter resultados. E ele, de algum jeito, sempre conseguia ter bons resultados com esses cavalos. Ele conseguia coisas incríveis com cavalos que outras pessoas não conseguiam nada”, compartilha  Rodrigo Pessoa. 

“O Neco é uma pessoa do cavalo, ele tem a sensibilidade, ele te ajuda a ler e entender o seu cavalo. Os cavalos não são iguais. Ele tem frases maravilhosas, uma que eu gosto muito é ‘todo cavalo vai dar um número x de saltos na vida, você não sabe quantos, então é melhor poupá-lo e gerenciar esses saltos’. Essa frase é muito sábia porque ensina a cuidar do cavalo, não saltar à toa, não gastar os cavalos para que eles durem mais”, divide André Johannpeter. 

De volta aos Jogos Olímpicos 

A condição de profissional impediu Nelson Pessoa de disputar os Jogos Olímpicos até 1992, quando o Comitê Olímpico Internacional liberou a participação de atletas profissionais. Aos 60 anos, ele foi a Barcelona, na Espanha, fazer sua última participação olímpica como atleta de maneira mais do que especial: seu filho, Rodrigo, fazia sua estreia como o mais jovem dentre todos os participantes da competição, com 19 anos. A equipe brasileira ficou na décima colocação. Nelson não foi bem, Rodrigo ficou em nono lugar.    

“Rodrigo foi o cavaleiro mais jovem nos Jogos a ter obtido um resultado entre os dez primeiros até então. Foi um caminho absolutamente natural, ele se tornou um grande profissional”, gaba-se Nelson. “Toda a nossa vida para mim foi só provar emoções e quando nós começamos a montar juntos, saltamos Grandes Prêmios, ganhamos a Copa das Nações, disputamos os Jogos Olímpicos juntos. Com 60 anos é difícil participar de uma edição olímpica”, enumera. 

Fim de carreira 

A idade e os altos custos do esporte contribuíram para o encerramento da carreira de Nelson Pessoa como atleta. “Em 1996, eu já não fui disputar os Jogos porque o meu filho estava precisando dos cavalos e nós não podíamos ter cavalos dessa categoria para duas pessoas na mesma família. Os cavalos começaram a custar muito caro, era muito difícil. Então, eu, mais velho, me retirei, e ele seguiu a representação da família. E não poderia ter sido melhor”, explica Neco, que passou a ocupar a posição de técnico. 

Em Atlanta 1996 e Sydney 2000, o Brasil foi representado por quatro cavaleiros, todos alunos de Neco: Rodrigo Pessoa, André Johannpeter, Luiz Felipe de Azevedo e Álvaro “Doda” Miranda. A equipe brasileira conquistou a medalha de bronze nas duas edições.   

“Foi uma coisa absolutamente inesquecível. Eram todos muito jovens, Rodrigo tinha 20 e poucos anos, eram todos meninos. O pódio de 1996 foi a melhor classificação do Brasil em Jogos Olímpicos até então. O Comitê Olímpico do Brasil sempre ajudou muito a equitação e nos deu todas as possibilidades”, emociona-se Nelson Pessoa. 

“O Neco sempre foi o meu parâmetro de vida, a minha inspiração para me tornar um cavaleiro profissional”, elogia Luiz Felipe de Azevedo. “A emoção de conquistar a primeira medalha olímpica para o Brasil, um bronze com gosto de ouro, foi, assim, indescritível. O Neco, como técnico, tem a manha do brasileiro. Todo o conhecimento técnico que uma pessoa pode absorver, ele absorveu na carreira dele e passou isso para nós. Em Sydney, ele teve uma atuação mais direta nos treinamentos dos cavalos. Foi realmente um monsieur”, avalia. 

Pai e treinador 

Uma das maiores alegrias de Nelson Pessoa foi ver seu filho Rodrigo sagrar-se campeão olímpico. “Meu filho começou em casa, quando tinha dois anos. Botei ele em cima de um cavalo. Primeiro nos cavalinhos pequenos, depois ele foi crescendo, se entusiasmou, gostou. Não forcei porque não queria que ele viesse assumir esse esporte só porque eu pratiquei. Se, eventualmente, ele fosse um cavaleiro de nível medíocre, eu teria uma grande culpa por tê-lo deixado entrar numa profissão onde ele era um esportista medíocre, mas eu tive confiança. Ele tinha muito talento e nós tínhamos facilidade, eu tinha uma boa instalação profissional, um centro hípico, tivemos muitos bons cavalos, então, ele pode seguir essa carreira”, descreve. 

Rodrigo revela que o desejo de estar perto do pai foi a maior motivação dele no início da carreira. “Meu pai viajava muito, poder montar quando ele estava em casa era sempre ter tempo com ele. Se eu fosse praticar outra coisa, estaria longe dele. Ele ia dar aulas, se ocupar de alunos, trabalhar nas cocheiras, e eu sempre queria ir com ele. Muito cedo eu decidi que era isso que eu queria fazer”, conta Rodrigo, que começou a treinar para valer aos 17 anos.  

“Ele era severo, muito exigente, mas sempre muito justo. Ele sabia exatamente o que pedir, se estava dentro da minha possibilidade fazer o que ele estava pedindo, aí ele queria realmente rendimento. Ele nunca pedia coisas que eu não podia atingir. Ele sempre foi muito claro e muito nítido nesse ponto de vista”, detalha.  



Um filho campeão olímpico 

A parceria entre pai e filho, além das medalhas de bronze por equipe nos Jogos  Atlanta 1996 e Sydney 2000, também rendeu o título de campeão olímpico de Rodrigo na disputa individual de saltos em Atenas 2004. O brasileiro subiu ao pódio para receber a medalha de prata, mas, após a confirmação do doping do cavalo Waterford Crystal, do irlandês Cian O'Connor, que terminou em primeiro na disputa, herdou a medalha de ouro. “A relação de pai, filho e técnico nem sempre é fácil, mas a gente conseguiu fazer certo as coisas, separar as nossas diferenças e poder sempre fazer o melhor pela equipe”, compartilha Rodrigo.  

“Ver o Rodrigo campeão olímpico foi uma emoção que quase foi a última porque o coração quase ficou lá. Ele já poderia ter sido campeão em 2000, mas, no último dia, quando ele estava liderando totalmente, faltando quatro obstáculos para terminar, o cavalo refugou. Não tinha tocado em um obstáculo durante as quatro provas anteriores e refugou, foi eliminado. Mas nós trabalhamos o cavalo quatro anos, e com esse mesmo cavalo, o Baloubet du Rouet, em 2004, ele foi campeão absoluto”, festeja Neco.  

“Aquilo que eu não consegui, ele conseguiu porque nós estávamos realmente superbem estruturados. Tinha um cavalo maravilhoso e tínhamos todos os meios, apoiados pelo Comitê Olímpico, com verba suficiente para termos toda a parte material necessária”, emenda. 

Nelson faz questão de ressaltar o talento do filho. “Em 98, ele foi campeão mundial em Roma. Depois foi tricampeão da Copa do Mundo. Ele foi mais longe do que eu fui. O caminho você tem que construir. Ele tinha uma infraestrutura, mas quando ele estava em cima do cavalo, ele estava sozinho. Ele que tinha que pilotar. Ele continuou a carreira dele, uma carreira brilhante”. 

Hall da Fama 

Modesto, Nelson Pessoa afirma que não esperava entrar para o Hall da Fama do COB. “Foi uma surpresa! Você pensa que isso sempre acontece com as outras pessoas. Considero isso como o máximo troféu que você pode obter como esportista. Você ganha no teu esporte e isso é um reconhecimento do maior órgão do esporte brasileiro, que é o Comitê Olímpico”, declara.  

“A presença dele no Hall da Fama vai estimular extraordinariamente o hipismo nacional. É um reconhecimento a um esporte ainda não tão disseminado no Brasil quanto na América e na Europa. Neco é o Pelé do hipismo!”, compara o grande amigo Heraldo Nunes. 

“É uma honra, primeiro ter o Nelson Pessoa na nossa vida, segundo ter o Nelson Pessoa no Hall da Fama”, reforça o medalhista olímpico Luiz Felipe Azevedo.  

“A entrada dele no Hall da Fama do COB é muito importante para ele, para a nossa família e para o hipismo. Se ele mesmo nunca conquistou medalhas olímpicas, ele foi o arquiteto das três medalhas que a gente tem até hoje. Esse reconhecimento do COB é muito importante”, finaliza Rodrigo Pessoa. 
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