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Zagallo

MODALIDADE

Futebol

DATA E LOCAL DE NASCIMENTO

09/08/1931 | Atalaia, Alagoas

JOGOS OLÍMPICOS

1996 |

CONQUISTAS

4

Medalhas de Ouro

Copa do Mundo de futebol Suécia 1958 Copa do Mundo de futebol Chile 1962 Copa do Mundo de futebol México 1970 Copa do Mundo de futebol Estados Unidos 1994

1

Medalhas de Bronze

Jogos Olímpicos Atlanta 1996

Biografia

Uma lenda do futebol como jogador e como treinador

Ele foi o primeiro ser humano do planeta a conquistar quatro títulos em Copas do Mundo de Futebol: bicampeão como jogador (Suécia 1958 e Chile 1962), campeão como técnico (México 1970) e campeão como coordenador técnico (Estados Unidos 1994). Como treinador, também ficou em segundo lugar na França, em 1998.  

“Ele tem todos os títulos, e acho que vai ser difícil ter outro no mundo, daqui para frente, como ele. Porque ele é bicampeão mundial como jogador, ele é campeão mundial como treinador, campeão mundial como diretor, bicampeão carioca de futebol pelo Botafogo, campeão pelo Flamengo... Por onde ele passou, ele foi campeão”, enfatiza Gérson de Oliveira Nunes, o “Canhotinha de Ouro”, campeão na Copa 1970.  

“Por isso é que eu sempre digo que a CBF deveria colocar uma estátua do Zagallo na porta da sua sede, quando você subisse os degraus, antes de entrar na porta, estaria lá a estátua dele, você teria que pedir licença a ele para entrar. Isso é o que eu acho do mestre Zagallo”, sugere. 

Convocado no Maracanazzo 

A primeira vez que Zagallo esteve em uma final de Copa do Mundo foi em 16 de julho de 1950, uma data inesquecível na história do nosso futebol, muitos anos antes da sua primeira convocação para a seleção brasileira. No lugar da amarelinha, ele vestia uma farda verde-oliva; em vez das chuteiras, tinha um par de botinas nos pés. Um capacete na cabeça e um cassetete na cintura completavam o uniforme. Então soldado da Polícia do Exército, ele foi escalado para trabalhar no policiamento do Estádio do Mário Filho, palco da partida que ficou conhecida como Maracanazzo.  

Das arquibancadas, viu o Brasil ser derrotado pelo Uruguai por 2 a 1. “Tive a felicidade, quer dizer, a infelicidade de ver o Brasil perder a Copa. Mas foi uma alegria imensa ver o Maracanã superlotado, transbordando com 200 mil pessoas. Uma emoção o momento do hino, a torcida com lencinhos brancos, um visual fantástico”, declarou Zagallo em entrevista ao Memória Globo, disponível na internet.  

“Eu tenho certeza absoluta que não sou pé-frio. Jamais poderia pensar, vendo o Brasil jogar no Maracanã em 1950, que oito anos depois eu seria campeão do mundo pelo Brasil pela primeira vez”, disse em entrevista ao jornalista Alex Escobar, em 2010, no Bom Dia Brasil, da Rede Globo.  

De Alagoas para a Tijuca 

Nascido em 9 de agosto de 1931, em Maceió, Alagoas, o menino Mário mudou-se com a família aos oito meses de vida para o Rio de Janeiro. A Tijuca foi o bairro escolhido para a nova residência.  

O pai, Aroldo Cardoso Zagallo, tinha planos para ele: queria que o filho estudasse Contabilidade para trabalhar na representação carioca da fábrica de tecidos da família, mas, desde os primeiros jogos na várzea, o caçula dos três irmãos se apaixonou pelo futebol e sabia que sua verdadeira vocação era ser jogador profissional. Quando a brincadeira começou a ficar séria, o irmão Fernando Henrique ajudou a convencer o pai que, a princípio, foi contrário à ideia. “Eu jogava pelada onde o Maracanã foi construído. Vi aquele mundo surgir do nada. Tive o privilégio de entrar no Maracanã enquanto ele nascia”, lembrou Zagallo em entrevista ao Memória Globo. 

Além do terreno baldio onde futuramente seria construído o Maracanã, na vizinhança dos Zagallo também estava a sede América Futebol Clube, do qual eram sócios e onde Mário praticou natação, vôlei e tênis de mesa. Como mesatenista, conquistou alguns títulos na infância. Em 1947, iniciou sua carreira no futebol, no time infantil do clube, com a camisa 10. Seguindo os passos do pai, que defendeu o CRB de Alagoas, disputou os torneios juvenis de 1948 e 1949, quando se sagrou vice-campeão.  

“Antes de jogar no América, eu joguei no Maguary e no América Júnior. Eram dois times de pelada. Minha posição era meia, e eu tinha na minha cabeça chegar à seleção. Eu mudei de posição: de 10, camisa 10, passei para 11, que era ponta esquerda. Com a 10, eu não vou chegar à seleção não, mas com a 11, eu tenho chance”, era o pensamento dele na época, revelado em entrevista no documentário Zagallo 90 Anos, produzido pela FIFA.  

Em 1950, Zagallo foi aprovado num teste no Flamengo, clube onde permaneceu por oito anos. 



Quase olímpico 

Antes mesmo de assinar o seu primeiro contrato como profissional, o jovem Mário Jorge já brilhava nos campos. Em 1951, conquistou o título do Campeonato Brasileiro de Aspirantes defendendo o Rio de Janeiro. Suas atuações chamaram a atenção de Newton Cardoso, técnico da seleção brasileira. O futebol do Brasil faria sua estreia em nos Jogos Helsinque 1952, e ele foi cotado para fazer parte deste primeiro time olímpico.  

“O treinador naquela época era o filho do Gentil Cardoso. Nós havíamos levantado o título brasileiro, os cariocas tinham levantado o primeiro Campeonato Brasileiro de Amadores, e eu era o titular da ponta esquerda”, contou Zagallo em entrevista ao Roda Viva, da TV Cultura, em 1996.  

“Ele tinha falado, na época, que eu não assinasse o contrato porque eu seria um jogador que participaria da seleção em Helsinque, mas, na dúvida, eu preferi assinar o contrato. Então, eu deixei de participar dos Jogos”, explicou.  Na época, a participação nos Jogos Olímpicos era restrita a atletas amadores. Ao assinar contrato com o Flamengo, Zagallo tornou-se profissional e ficou impedido de integrar a equipe.  

Um amor quase proibido 

Em 1952, Mário Jorge conheceu Alcina, num baile pré-Carnaval, no América. Os dois namoraram por seis meses sem que ele declarasse ao grande amor da sua vida qual era a sua principal atividade. Isso porque, naquele tempo, longe do glamour e da popularidade dos dias atuais, jogadores de futebol não desfrutavam de boa fama entre as famílias tradicionais. O segredo foi revelado no dia em que o cunhado de Alcina, ao conhecer Zagallo, o identificou como ponta-esquerda do Flamengo.    

“Antigamente, jogador de futebol era visto com muita restrição, porque era considerada uma atividade de malandro e de gente de baixo nível cultural. Meu marido era uma das poucas exceções, pois vinha de uma família muito boa. Seus pais tinham uma educação finíssima. Mesmo assim, quando a minha família descobriu, foi um tumulto. Proibiram-me de vê-lo e até de falar com ele ao telefone. Eu mesma, quando soube, levei um choque. Mas enfrentamos a guerra familiar e acabamos nos casando. Em pouco tempo, ele passou a ser o genro mais querido dos meus pais. Minha mãe se apaixonou por ele”, declarou dona Alcina de Castro Carvalho, no livro “Zagallo, um vencedor”, de Luiz Augusto Erthal e Vanderlei Borges.    

Os dois se casaram em 13 de janeiro de 1955, tiveram cinco filhos – Maria Emília, Paulo Jorge e seu irmão gêmeo, que faleceu nos primeiros dias de vida; Maria Cristina e Mário César – e viveram felizes por 57 anos. Dona Alcina faleceu, vítima de complicações respiratórias, em 5 de novembro de 2012, aos 80 anos.  

Estilo 

Descrito como um jogador tático, Zagallo era franzino e tinha um preparo físico extraordinário. Num estilo que era só dele, atuava como um ponta recuado que ajudava bastante no meio-de-campo, o que lhe valeu o apelido de “Formiguinha” no Flamengo, onde conquistou o tricampeonato carioca, em 1953, 1954 e 1955. “Ele foi um ponta além do tempo dele. Até o Zagallo, o ponta ficava lá, esperando a bola chegar, ponta direita e ponta esquerda ficavam lá olhando o jogo. O Zagallo voltava”, analisa o jornalista Mílton Neves, grande fã do treinador tetracampeão. 

“O Zagallo obrigou a maioria dos treinadores da época a seguir o estilo dele. Ele obrigou, ainda como jogador, os treinadores que trabalhavam com ele a jogarem no 4-3-3. Ele recebeu o apelido de Formiguinha por ser incansável. Ele era um jogador que sabia desenvolver o seu jogo combinando inteligência e resistência”, avalia Jair Ventura Filho, o Jairzinho, o Furacão da Copa de 70. 

“Como jogador, ele era diferente, naturalmente. Naquela época, só o Botafogo jogava no 4-3-3, com ele fechando o meio, como terceiro homem, e a seleção brasileira jogava assim, mais ninguém jogava, mais time nenhum no Brasil jogava daquela maneira. Era uma diferença. E ele discutia com todo mundo essa diferença .Perguntavam: ‘Mas você não é ponta, não vai na linha de fundo?’. E ele respondia: ‘Vou na linha de fundo, faço o que eu tenho que fazer, mas, em compensação, eu volto para marcar, coisa que vocês não fazem’. Era um diferencial”, destaca Gérson.  

Seleção brasileira 

Disputando a posição com jogadores de talento indiscutível como Canhoteiro, do São Paulo, e Pepe, do Santos, Zagallo foi convocado pela primeira vez para a seleção brasileira pelo técnico Vicente Feola, como segundo reserva da ponta esquerda, aos 26 anos.  

“Eu havia sido convocado para a seleção carioca quando nós fomos campeões brasileiros. Mas a seleção brasileira, a verdinha-amarela, ainda não tinha pintado. Eu me recordo que em um jogo entre Botafogo e Flamengo, o Paulo Amaral veio falar comigo e disse: ‘Olha, você está sendo observado, a Comissão Técnica está vendo esse jogo’. E foi um dia daqueles, maravilhoso, em que joguei muito bem”, dividiu Zagallo em entrevista ao Memória Globo. Na sua partida de estreia, marcou dois gols na vitória do Brasil contra o Paraguai, por 5 a 1, num amistoso disputado no Rio de Janeiro.  



“A taça do mundo é nossa” 

Mesmo tendo machucado a mão esquerda, durante um treinamento, às vésperas do embarque para a Suécia, Zagallo se recuperou e conquistou a posição de titular na Copa 1958. “A primeira lembrança que marcou foi a de um treino antes da Copa. Eu fiquei em um gol, e o Pelé, no outro. Naquela época não havia substituição caso alguém se machucasse. O time que entrava em campo era o que ficava até o final. Não tinha cartão amarelo nem vermelho. Se o goleiro machucasse, o Pelé ou eu ia para o gol. E aconteceu um imprevisto comigo. Em um chute do Bellinni, a bola pegou no meu dedo e rasgou. Foram 13 pontos”, recordou em entrevista ao Memória Globo.  

Motivada pela devoção da esposa a Santo Antônio, celebrado em 13 de junho, a superstição em relação ao 13, seu número da sorte, sempre foi uma das marcas registradas de Zagallo desde o início da sua carreira. 

Ele participou das seis partidas da competição e fez um gol na final, quando o Brasil venceu a Suécia por 5 a 2 conquistando seu primeiro título em Copas do Mundo. Também ajudou na defesa, salvando, de cabeça, uma bola em cima da linha que poderia ter sido o segundo gol da Suécia, quando o Brasil ainda estava em desvantagem no placar. 

"Zagallo foi um excelente jogador", afirma o jornalista Roberto Assaf, autor de "Seleção Brasileira 90 anos: 1914-2004 (2004)", em parceria com Antônio Carlos Napoleão, em entrevista ao UOL. "Poucos no futebol defenderam e atacaram com a mesma eficiência". 

Em entrevista ao blog Olho Tático, do jornalista André Rocha, Zagallo falou o seguinte sobre a estrutura tática de 1958: "O 4-3-3 não nasceu em 1962. Já em 1958 eu fazia a dupla função. Com a bola era um ponteiro. Mas também podia ficar e cobrir o Nilton Santos. Sem a bola, eu era o homem que dava vantagem numérica. Se a jogada do adversário fosse pelo nosso lado, eu ajudava o Nilton a marcar o ponta. Dois contra um. Se fosse do lado oposto, fechava e ficávamos Zito, Didi e eu. Três contra dois no meio-campo". 

A conquista da Copa do Mundo pela primeira vez colocou o Brasil, definitivamente, no mapa dos grandes times do futebol mundial. “O Brasil não era conhecido. Na Suécia, a bandeira de Portugal estava no lugar da do Brasil. Não tínhamos prestígio nenhum no exterior. Ninguém acreditava na seleção. Tínhamos perdido a Copa de 1950 em casa. O futebol fez muita coisa por este país. A amarelinha mostrou que havia um país no outro continente, porque até a nossa capital achavam que era Buenos Aires”, enfatizou em entrevista ao Memória Globo. 

Botafogo 

De volta ao Brasil, Zagallo tornou-se o primeiro jogador a conseguir passe livre e se transferiu do Flamengo para o Botafogo. “Eu não queria sair do Flamengo. O Fleitas Solich (técnico) e o diretor Fadel vieram até minha casa, conversaram comigo. Me lembro até hoje as palavras que disse: ‘Eu não estou querendo sair, eu já tinha proposto a vocês que eu dava o meu passe em troca de um emprego na Caixa Econômica’, que era a minha garantia de futuro. ‘Eu estou jogando, mas estou pensando sempre em frente e até hoje vocês não me ouviram’˜, relembra Zagallo. 

"Aí veio a Portuguesa me oferecendo três milhões, o Palmeiras oferecendo cinco milhões, e eu acabei aceitando ir ao Botafogo por três milhões. Por quê? Porque o Botafogo era um time bom, além disso minha mulher era professora e ela ia perder todas as aulas dela se eu fosse para São Paulo”, compartilhou Zagallo, em entrevista a Jayme Pimenta Valente Filho, no livro “Mário Jorge Lobo Zagallo: Entre o Sagrado e o Profano, uma história de vida”, da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto, Portugal, 2006. 

Jogando ao lado de nomes consagrados como Nilton Santos, Garrincha e Didi, ele conquistou o bicampeonato carioca em 1961 e 1962. "Zagallo entendeu que deixar o Flamengo e se transferir para o Botafogo significava alcançar o topo de sua carreira pela oportunidade de estar no meio de 'monstros sagrados'", afirma Júlio Gracco, autor de ""Bíblia do Botafogo (2016), em parceria com Octávio Azeredo, em entrevista disponível na internet. "Zagallo ajudou o Botafogo a conquistar dois dos maiores títulos de sua história, além de outros tantos títulos internacionais, como o Torneio de Paris, de 1963", lembra. 

Em 16 anos de carreira como jogador, ele nunca foi expulso. “Eu ganhei o Troféu Belfort Duarte por ter jogado 10 anos sem nenhuma expulsão,” orgulhou-se, em entrevista ao Memória Globo. 

Copa de 1962 

Na Copa do México, em 1962, o técnico era Aymoré Moreira, e Zagallo, novamente, foi o titular. Mesmo desfalcada de Pelé, que sofreu um estiramento no músculo da coxa, a seleção sagrou-se bicampeã mundial ao vencer a Tchecoslováquia por 3 a 1, na decisão.  

“Apesar de o Zagallo ter quatro anos a mais do que eu, a gente conviveu muitas vezes na seleção tanto na Copa de 58 quanto na de 62. Eu não tive muita sorte porque me lesionei nas duas oportunidades em jogos preparativos.  Há duas semanas da Copa, eu tive lesões que me atrapalharam bastante, e o Zagallo aproveitou bem porque ele era um jogador que tinha uma característica diferente, haja vista que eu era na base do 4-2-4, e o Zagallo fazia o terceiro homem e fazia com muita inteligência, aquele pedaço do lado esquerdo. Ele realmente conhecia bastante e se entendia muito bem, principalmente como o Nilton Santos, que era o lateral esquerdo”, pontua o ponta-esquerda José Macia, o Pepe, campeão em 1958 e 1962.  

“Foi um jogador muito inteligente, que não fez tantos gols como eu. As características eram diferentes, mas, independentemente disso, ele foi extremamente útil nas seleções brasileiras fazendo esse papel e dando, inclusive, mais liberdade ao Pelé e, mais adiante, ao Vavá e ao Garrincha”, completa.  

"Se tem uma palavra que define a trajetória do Zagallo, é determinação", avalia o jornalista Vanderlei Borges, autor de ""Zagallo - Um Vencedor (1996), em parceria com Luiz Augusto Erthal. "Há uma dificuldade natural para dimensionar o nível de craque que o Zagallo foi. O fato de jogar ao lado de Pelé e Garrincha ofuscaria o brilho de qualquer outro que não tivesse a estatura dos gênios. Não seria diferente com Zagallo", emendou, em entrevista ao UOL. 



Nasce um técnico 

Depois de encerrar sua carreira como jogador, em 1965, Zagallo continuou no Botafogo, assumindo, inicialmente, a função de técnico do juvenil, em 1966. À frente do time principal, conquistou o título do Campeonato Carioca e da Taça Guanabara, em 1967 e em 1968, e do Campeonato Brasileiro de 1968.  

“É evidente que, para você ser técnico, tem que ter algum preparo. Cada um tem uma vida diferente. Eu tive essa felicidade porque os estudos foram fundamentais para mim. Eu tinha uma melhor condição para falar, para ter uma liderança. Porque, até então, eu jogava, eu dependia da minha própria atuação dentro do campo. Mas quando você pega um grupo, você é que tem que ser um líder. E a minha liderança foi uma coisa nata, já estava dentro de mim”, disse ele ao jornal Estado de Minas. 

Sílvio Lancellotti enfatiza que a liderança de Zagallo em campo já era notória desde os tempos em que ele era jogador. “Ele era um cara que ajudava muito a retaguarda, apoiava o ataque, um cara que falava em campo. Falava as coisas quando tinha que falar, comandava quando tinha que comandar, e isso ele acabou herdando como treinador”. “Quando ele era jogador, virou técnico do jogo com bola rolando. É uma coisa rara, um jogador que é técnico dentro de campo”, pontua Mílton Neves. “Como treinador, ele era mais um jogador. Claro que era o treinador, discutia como treinador, mas discutia e argumentava com os jogadores como um jogador brilhante que foi”, testifica Gérson. 

“Ele foi um bom jogador e depois foi um excelente técnico. Era uma pessoa que estudava muito sobre o futebol, sobre os adversários e tinha muita facilidade. Mesmo como jogador, ele que praticamente fez nascer o 4-3-3. Praticamente todos os clubes brasileiros jogavam no 4-2-4 e, com a presença do Zagallo, foi formado o 4-3-3”, ressalta Pepe.  

México 1970 

A menos de 100 dias da Copa de 1970, o técnico João Saldanha, que havia classificado a seleção com 100% de aproveitamento nas Eliminatórias, deixou o cargo. Mário Jorge Lobo Zagallo foi o escolhido para assumir, em março, o comando da equipe que brigaria pelo tri no México. “O time era muito bom. Eu tinha 39 anos, o técnico mais novo a assumir a seleção, mas já era maduro. Faltavam dois meses para a Copa, mas foram dois meses treinando diariamente e eu fiz algumas alterações”, destacou Zagallo em entrevista ao Memória Globo.  

Com ousadia, Zagallo montou um time com cinco camisas 10: Pelé, Gérson, Tostão, Rivellino e Jairzinho. “Foi num jogo na América Central, não lembro contra quem, na preparação do Brasil, que ele ajudou a colocar o Gérson com o Rivellino no mesmo time, porque dizia que era incompatível um time com dois canhotos no meio de campo. E deu no que deu, ali se inventou um estilo de o Brasil jogar”, pontua o jornalista Sílvio Lancellotti. 

O “Formiguinha” caminhava agora para se tornar o “Velho Lobo”, o primeiro a conquistar uma Copa do Mundo como jogador e também como técnico. Agora ele era o comandante de alguns dos craques que jogaram ao seu lado. “Como ele tinha sido jogador com aqueles caras, os jogadores não o chamavam de professor, chamavam de Zé”, observa Silvio Lancellotti. 

“Eu lembro que, quando ele fez a convocação, eram 24/25 jogadores e, na ponta direita, éramos eu e o Rogério. O Rogério, infelizmente, teve uma contratura muscular e não pode participar dos treinamentos dos jogos. Ele me chamou um dia na sala dele e me expressou total confiabilidade. Disse: ‘Olha, eu confio tanto em você, eu conheço você há tantos anos, você só me deu alegria, então minha confiança em você é dupla ou até tripla, eu não vou colocar outro jogador e vou seguir com você’”, compartilha Jairzinho.  

“Imagine a responsabilidade que ele me passou. Ele me deu autonomia para que eu pudesse crescer na minha parte emocional. Quando ele me fez essa colocação, eu me retirei da sala dele e fiquei encucado. Nesse dia, dormi mal para caramba. O Zagallo está querendo me passar essa responsabilidade. E se eu me machucar, como é que ele vai fazer? Eu pensava. Essa confiança dele me fortaleceu mais ainda, e eu cresci no aspecto emocional, tanto é que eu fiz uma Copa do Mundo invejável, poucos conseguiram fazer gols em todos os jogos, e eu fiz. Pela minha forma física, técnica e tática, eu recebi o apelido de Furacão. Tudo isso por culpa dele. Ele foi o grande culpado por eu ter conseguido isso e, o mais importante, que é ter contribuído com ele, com a Comissão Técnica dele e com os colegas para dar ao Brasil definitivamente da Taça Jules Rimet. De todos os jogadores, eu acho que quem mais ganhou fui eu por essa confiança que ele depositou em mim”, pormenoriza o Furacão da Copa de 70.