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Manoel dos Santos

MODALIDADE

Natação

DATA E LOCAL DE NASCIMENTO

22/02/1939 | Guararapes, SP

JOGOS OLÍMPICOS

1960 |

CONQUISTAS

1

Medalhas de Ouro

Jogos Luso-brasileiros Lisboa 1960

1

Medalhas de Bronze

Jogos Olímpicos Roma 1960

Biografia

O menino que queria nadar como Tarzan brilha nas piscinas

Quando subiu ao pódio para receber a medalha de ouro do revezamento 4x100m livre no Campeonato Sul-americano de natação, em 22 de fevereiro de 1962, Manoel dos Santos, aos 23 anos, foi surpreendido por uma manifestação espontânea da torcida em Buenos Aires. Os argentinos, que acabavam de assistir à performance do medalhista de bronze nos Jogos Olímpicos Roma 1960 e recordista mundial dos 100m livre, entoaram "Cumpleaños feliz"(Parabéns a você), ovacionando o brasileiro.  

“Foi uma das maiores alegrias que eu tive na vida”, revela Manoel.  

A competição entre Brasil e Argentina foi acirrada. Manoel foi o último do revezamento brasileiro a entrar na água na última prova do campeonato. “Eu caí atrás, quase um corpo, busquei o resultado e ganhamos. Foi emocionante!”, festeja.   

“Cumpleaños feliz” foi a trilha sonora do pódio que marcou o encerramento precoce da carreira do segundo medalhista olímpico e primeiro recordista mundial da natação brasileira.  

Inspirado em Tarzan 

Segundo filho de uma família de seis irmãos, Manoel dos Santos nasceu em Guararapes, interior paulista, em 22 de fevereiro de 1939. Ainda pequeno, mudou-se com a família para Andradina, onde o pai, empresário, dirigia alguns empreendimentos, entre eles um hotel e um cinema. 

Nos anos 40, quando ainda não havia televisão no Brasil e a massificação do esporte estava longe de ser realidade, a grande paixão do menino Maninho, como era chamado pela família, era assistir aos filmes do Tarzan. Na época, o personagem era interpretado por Johnny Weissmuller.  

“Como meu pai era o dono do cinema, eu ia lá à tarde e falava para o operador passar o filme do Tarzan nadando”, conta. “Ele nadava com a cabeça para fora para mostrar o rosto na câmera, e eu aprendi a nadar com a cabeça para fora igual ao Johnny Weissmuller. Era mais difícil. Com a cabeça para fora, você força mais a perna. O Tarzan foi o princípio. Tinha uma lagoa em Andradina, e molecada ia nadar lá. Eu dizia: Agora eu sou o Tarzan! E saía nadando igual a ele”, diverte-se.   

Inspiração de Manoel, Johnny Weissmuller é um dos grandes nomes da natração oímpica. O ator que interpretou icônico personagem das selvas na telona conquistou cinco medalhas de ouro nos Jogos Paris 1924 e Amsterdã 1928, além de um bronze com a equipe norte-americana de polo aquático, em 1924.   



Doentinho 

Manoel dos Santos teve a primeira infância marcada por problemas de saúde. “Eu era muito raquítico. Fui hospitalizado três vezes até os cinco anos de idade. Eu sou anterior à penicilina, então, quando a gente pegava uma infecção, o corpo não reagia”, relata. “Um amigo do meu pai o aconselhou a me levar para fazer natação. Como em Andradina não tinha nada, ele me pôs num colégio interno em Rio Claro. Eu tinha 10 anos na época”, emenda.  

Três irmãs de Maneco passaram pela mesma escola. “Naquele tempo, era normal as crianças irem para o colégio interno”, pontua. 

No Ginásio Koelle, um colégio alemão, Manoel foi encaminhado para a escola de natação. “As piscinas não tinham água quente, era só água fria. Nadando na água fria, a gente cria muitos anticorpos”, receita.   

De fracote a atleta

Treinando com o técnico Bruno Buch, Manoel dos Santos deixou de nadar com a cabeça para fora, como o Tarzan, aprimorou a técnica e teve a saúde restaurada. Em pouco tempo, surgiu o desejo de se tornar atleta.  

“Eu descobri que a turma da natação saía para competir todos os fins de semana. Eles iam para Piracicaba, Leme, Campinas, Araraquara... Eu nunca tinha feito esporte antes e queria viajar”, confessa.  

Aos 13 anos, o menino de Guararapes passou a integrar a equipe de natação do colégio. “Os treinos não eram puxados. Eu fazia dois mil, três mil metros por dia. Naquele tempo, a gente não fazia programa de aeróbico. Não podia correr senão endurecia a perna.” 

O primeiro Pan 

Competindo pelo Ginástico de Rio Claro, Manoel nadava os vários estilos. “Em competição, como o Campeonato Brasileiro ou o Paulista, eu nadava 100m crawl (nado livre), 200m crawl, 100m borboleta, 100m costas. Fazia tudo para fazer ponto para o clube. Não tinha problema tirar segundo ou terceiro lugar, porque fazia uns pontinhos. Mais importante do que os títulos eram os pontos para o clube”, esclarece.  

As boas performances resultaram na sua convocação para a seleção brasileira aos 15 anos. “A primeira vez que eu fui para a seleção foi nadando costas, porque era mais fácil de se classificar do que no crawl”, admite. 

Em março de 1955, ele embarcou para os Jogos Pan-americanos na Cidade do México. Foi uma aventura. “Eu fui de avião da FAB, um DC3, de paraquedista. Levou quatro dias para chegar lá. O avião tinha banco lateral. Mas, apesar das condições, cheguei bem. Com 16 anos se chega moído?”, questiona. A viagem teve escalas em Belém, Trinidad e Tobago e Cuba.  

“Nós ficávamos em alojamento, geralmente em quartel. A gente precisava descansar, mas às oito da noite chegava uma equipe, às nove, outra. A última equipe chegava às duas horas da manhã. Quem tinha sono leve, como eu, não dormia. Seis horas da manhã estava todo mundo acordado de novo porque a turma do remo já levantava fazendo barulho. Eles não tinham o profissionalismo de isolar alguém”, lamenta.  Manoel não foi bem na competição.   

Fora de Melbourne por muito pouco 

Depois de participar do Campeonato Sul-americano de Viña Del Mar, no Chile, onde ficou com a medalha de prata no revezamento 4x100m livre, Manoel decidiu que os 100m livre seriam a sua especialidade dali para frente.  

Em prova realizada no Vasco da Gama, no Rio de Janeiro, o paulista nadou dois décimos de segundo acima do índice e ficou fora dos Jogos Olímpicos Melbourne 1956.  

Rumo ao litoral 

Em busca de melhores condições de treinamento, Manoel mudou-se para Santos, em 1957. “Eu tinha terminado o ginásio (ensino fundamental) em Rio Claro e tinha que fazer o científico (ensino médio), precisava servir o Exército também”, detalha o nadador. 

Manoel começou a estudar na Escola de Pilotagem de Bauru para escapar do Serviço Militar, mas não pode dar prosseguimento porque tinha labirintite e desmaiou na primeira vez que o avião deu um looping. “Eu sempre gostei de aviação, mas não podia ser piloto. Foi uma das maiores desilusões da minha vida”, lamenta.   

Manoel conta que o técnico Bruno Buch, de Rio Claro, conhecia o Adalberto Mariano, do Clube de Regatas Internacional, de Santos, o que facilitou a sua transferência para o litoral.  



Um encontro que mudou o destino 

Em Santos, Manoel conheceu o japonês Minoru Hirano, ex-nadador, massagista, judoca e diretor de natação do Internacional. Quando os Peixes Voadores, equipe de natação japonesa formada por recordistas mundiais, vieram para o Brasil, em 1949, a convite do Major Sylvio de Magalhães Padilha, à época diretor do DEFE (Departamento Estadual de Esportes de São Paulo), Hirano atuou como intérprete.  

“Ele se correspondia com os Peixes Voadores e começou a me dar o treinamento na piscina, preparação física e tudo”, divide Manoel dos Santos.  

Depois de três anos ganhando tudo no Brasil, Manoel havia perdido uma competição para Athos Procópio, nadador de Catanduva. Na análise de Minoru, a causa da baixa no rendimento foi o cansaço. Para recuperar a forma, estabeleceu um treino inovador,que ia na contramão do que a maioria dos nadadores praticava: nadar 400 metros e dar quatro tiros de 25 metros, de manhã e à tarde.  

“A turma tinha voltado dos Jogos Olímpicos em Melbourne praticando um tal de interval-trainning: dava 10 tiros de 100 metros, 10 tiros de não sei o que lá, muito treino, muitos metros. Eu treinava menos porque estava cansado. E deu certo”, diz. 

Aprendendo com os peixes do aquário 

Manoel lembra de uma lição que aprendeu com Minoru no Aquário de Santos. “Ele me disse: ‘Repara os peixes grandões como nadam. E os peixes pequenininhos? O segredo é você aplicar a força no momento certo’. Ele me ensinou a coordenar os braços com as pernas”, agradece. “Naquela época, não era comum esse aprimoramento de estilo. Não era comum contar braçadas. Eu dava 16 braçadas, passei a dar 11, depois fui para 13 porque com 11 eu estava esticando muito na água e cansava muito. Achei um denominador comum para fazer as braçadas”, detalha.  

Na época de preparação para as competições, Manoel dos Santos nadava até três mil metros de manhã e três mil metros à tarde, além de fazer pelo menos uma hora de ginástica todos os dias.  

“A principal inovação técnica do Manoel veio com o Minoru Hirano, que aumentou a metragem média dos treinos e também o trabalho de educativos, para a melhora do estilo, coisa rara na época”, avalia Renato Cordani, dirigente da CBDA (Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos).  

Preparação no tatame 

A ginástica que Hirano incluía nos treinos também era algo inovador para os padrões brasileiros. “A primeira vez que eu comecei a fazer essa parte de preparação física foi com o Minoru. Ele era professor de judô e tinha facilidade de encontrar esses movimentos de força, porque no judô também se aplica força. Nós não usávamos pesos, os exercícios eram feitos com o peso do próprio corpo”, descreve Manoel.  

“Na década de 40, o conceito era que os nadadores não podiam fazer corridas e nem exercícios de musculação. No fim da década, os japoneses começaram a bater recordes mundiais de natação e fizeram visitas ao Brasil. Eles passaram alterações que estavam fazendo nos treinamentos para alguns técnicos brasileiros, principalmente japoneses. O Minoru Hirano havia assimilado bem esses novos conceitos de treinamento. Eles consistiam em treinos de natação com maiores distâncias, exercícios físicos para ganhar força e massagens”, compartilha o ex-nadador Osmar Baptista Silva, o Mazinho, companheiro de Maneco no time santista. 

 “A equipe toda do Clube Internacional de Regatas teve um ganho enorme nas competições, tornando-se campeã santista, paulista e brasileira nos anos de 1957 e 1958. E o Manoel dos Santos Jr. foi o que melhor resultado obteve, desenvolvendo um estilo especial e com muita velocidade, batendo recordes brasileiros e sul-americanos”, completa. 

Amor na piscina 

Em 1958, Manoel conheceu Mariângela, que também estudava no Colégio Santa Cecília, e era das equipes de natação e de vôlei do Clube Internacional de Regatas.  

Como Hirano nem sempre acompanhava os treinos, a namorada passou a ser a companheira que incentivava o jovem nadador à beira da piscina. “Ela sempre levava um sanduichinho para eu comer depois dos treinos”, lembra Manoel. “Quando ela veio fazer Educação Física em São Paulo, fez parte da primeira equipe de handebol feminina do Brasil”, orgulha-se. 

Os dois se casaram em 1965, tiveram dois filhos – Marcelo e Maurício - e permaneceram juntos até a morte dela, em 2021.  

Recorde sul-americano 

Manoel dos Santos foi o grande nome da equipe brasileira no Campeonato Sul-americano 1958, em Montevidéu, no Uruguai. Além de conquistar quatro medalhas de ouro (100m livre e revezamentos 4x100m livre, 4x200m livre e 4x100m medley), ele se tornou o segundo brasileiro a garantir o lugar mais alto do pódio nos 100m livre na história da competição – Armando Freitas foi o vencedor em 1939. Manoel também estabeleceu um novo recorde para a prova, com o tempo de 56s6 marcado nas eliminatórias.  

“Eu ganhei e marquei o terceiro melhor tempo do mundo na época”, enfatiza Manoel. “Veja bem como o nosso esporte era amador. O COB tinha que ter visto isso. Dois anos antes dos Jogos Olímpicos eu era o terceiro homem do mundo. Faltou o profissionalismo da Confederação de me colocar num lugar onde havia piscina de 50 metros, como fazem hoje. Hoje os nadadores saem do Brasil para treinar fora, para ter uma referência dos Jogos. Mas eles eram amadores. Era assim, tem uma eliminatória, quem fizer o tempo olímpico vai”, desabafa.    

Fugindo da água fria

Depois de se tornar bicampeão dos 100m livre no Campeonato Sul-americano de Cali, na Colômbia, e ficar em quarto lugar nos Jogos Pan-Americanos Chicago 1959, nos Estados Unidos, Manoel focou nos Jogos Olímpicos Roma 1960. À essa altura, ele já defendia o Esporte Clube Pinheiros, de São Paulo, mas continuava treinando sob as orientações de Minoru Hirano. Segundo ele, o trabalho específico para os Jogos teve início em maio. 

“Era época de frio ,e eu já morava em São Paulo. Eu descia a serra porque em Santos a água ficava entre 17C e 18C, enquanto em São Paulo era entre 14C e 15C. Não tinha piscina aquecida”, explica. 

Manoel se lembra da primeira vez que treinou em água fria com o técnico japonês. “Era inverno, e eu me debati na água. A gente se debate para se esquentar. Ele me questionou: ‘Por que você está se debatendo na água? Aceita a água como gostosa! Agora você vai pular na água e não vai se debater. Deixa o frio entrar, o calor vai expulsando o frio e você sai nadando devagar’. Nas primeiras vezes foi difícil, mas logo eu acostumei’.  

Escala desastrosa 

Antes de desembarcar na Itália para os Jogos Olímpicos, a equipe brasileira de natação fez uma escala em Portugal, onde aconteciam os Jogos Luso-brasileiros. “Como eu sou descendente de portugueses, me obrigaram a nadar lá, no meio do treinamento para os Jogos Olímpicos, sem a presença do Hirano”, protesta. “A piscina era fria demais, e eu peguei uma amigdalite horrorosa. Atrapalhou tudo”.  

Resultado: o brasileiro com maiores chances de conquistar uma medalha nos Jogos de 1960 chegou a Roma doente, tendo que tomar antibióticos antes da competição.  


Mistura de sentimentos

Ao chegar à cidade olímpica, Manoel dos Santos viu o sentimento o temor de ter seus planos para a competição frustrados se misturar ao deslumbre natural aos estreantes nos Jogos. “Aquele ambiente me assustou muito. Eu já tinha participado de competições internacionais, como o Campeonato Sul-americano e os Jogos Pan-americanos, mas os Jogos Olímpicos são completamente diferentes. Aquela suntuosidade toda é deslumbrante”, diz.  

O técnico Minoru Hirano chegou a Roma três dias antes da disputa dos 100m livre. O pai de Manoel também estava lá para incentivá-lo. “Naquele tempo era bom porque o meu pai entrou no alojamento. Podiam andar por lá, era tudo solto. Só depois dos Jogos Munique 1972, onde houve um problema sério de segurança, que as coisas mudaram”, observa, referindo-se ao atentado terrorista contra a equipe israelense ocorrido na Alemanha.  

Aprendendo a superar 

Manoel dos Santos conta que, quando falou para o técnico japonês que tinha dado tudo errado, levou uma bronca. “O Hirano me chamou a atenção! Ele me respondeu que podia ter dado tudo errado, mas que eu ia passar por cima de tudo. ‘Você tem que superar todos os problemas que vierem!’. Foi o que ele disse”. 

Graças à amigdalite, o brasileiro ficou livre do barulho comum às noites nos alojamentos. Como não estava bem, o médico da equipe conquistou para ele o direito de dormir na enfermaria da Vila Olímpica, longe da agitação.  

Na frente na eliminatória e na semifinal 

As eliminatórias e semifinais dos 100m livre nos Jogos de Roma aconteceram em 26 de agosto, a partir das 8h30. Manoel foi o primeiro nas suas baterias, sempre com o tempo de 56s3. “Eu me lembro daquele monte de gente torcendo para o americano e para o australiano nas baterias deles. E eu, um Zé Mané, naquele meio. Eu tinha uma grande responsabilidade porque o Brasil não tinha ninguém para ganhar medalha, tanto é que nós ganhamos só duas medalhas naqueles Jogos”, destaca. 

Erro fatal

Na noite do dia 27, o brasileiro largou na raia 6 e disparou na frente na final dos 100m livre. “Eu estava tão na frente que pensei que tinha queimado a largada. Naquele tempo, quando alguém queimava, eles soltavam uma corda na piscina, e a gente se embaraçava para parar. Eu respiro do lado direito, os meus adversários estavam todos do lado direito, mas eu não via ninguém.”, compartilha. 

“Eu pensava na posição de braço, de perna, que estava encaixando e nisso chegou a virada. Eu bati o braço na virada, errei! Eu treinei o tempo todo em piscina de 25m e competi em piscina de 50m. As referências são outras. O australiano e o americano chegaram atrás de mim nos primeiros 50m. Eu tinha quase um corpo de vantagem e, depois do erro, eles saíram na minha frente. Foi falta de cancha internacional. Eu não conhecia os adversários”, constata o brasileiro, que, apesar do erro, terminou a prova em terceiro lugar. 



A definição do vencedor da prova se transformou em controvérsia. “Não havia cronometragem eletrônica. Ficaram discutindo o resultado por uma meia hora e deram a vitória para o australiano. Depois ficou provado que não foi ele quem ganhou. Era tudo no olho, todo mundo chegava espirrando água para confundir os cronometristas”, conta Manoel, que garantiu a medalha de bronze com o tempo de 55s4. O ouro foi para o australiano John Devitt (55s2), e prata, para o norte-americano Lance Larson (55s1).  

Dificuldade até no pódio     

Feliz com a conquista, o brasileiro foi para a cerimônia de premiação vestindo um agasalho curto, que ficava no meio da barriga. O uniforme não fazia jus à conquista. “Sorte que, na hora de receber o prêmio, alguém me jogou um agasalho maior.Se não me engano, foi um jogador de basquete. Daí eu vesti e ficou decente. Acabou a competição, eu tive que devolver o agasalho, senão eu não seria convocado para mais nada. Eram amadores, não tinha dinheiro, não tinha patrocínio, não tinha nada”, diz. 

Bronze histórico

“Perdi o ouro!”, esse foi o primeiro pensamento de Manoel dos Santos no pódio, imediatamente rebatido pela consciência de que ele estava entrando para a história. “Pouca gente tinha medalha olímpica. Era a segunda medalha olímpica da natação do Brasil. E quantos brasileiros tiveram medalha até os Jogos de Roma? Foram muito poucos.” 

O bronze de Manoel foi a nona medalha olímpica do Brasil. Naquela mesma edição, o basquete masculino também conquistou o bronze, totalizando 10 pódios olímpicos para o país até Roma 1960.  

“Note-se que ele foi medalhista olímpico numa época em que não havia óculos natação, palmares, pés-de-pato, assessorias de alimentação e psicológica e nenhum retorno de promoção ou publicidade”, pontua o ex-nadador Osmar Baptista Silva, companheiro de Maneco no Clube Internacional de Regatas, em Santos.  
 
A dimensão do feito do brasileiro só ficou mais evidente para ele mesmo quando chegou ao refeitório da Vila Olímpica e foi cumprimentado por uma atleta da equipe norte-americana. “Naquele momento, eu dei a importância à medalha. Ficar em terceiro lugar foi uma vitória. Essa medalha representou superação. Eu fui capaz de tirar um terceiro lugar!”, emociona-se Manoel dos Santos.   

Sem dinheiro, em busca de um recorde 

Depois do bronze olímpico em Roma, Maneco passou a se dedicar a um novo desafio: quebrar o recorde mundial dos 100m livre. Era uma promessa que havia feito ao pai e ao técnico.  

Como Mironu Hirano não acompanhava todos os treinos, ele ia treinar sozinho, sem equipe, quase todos os dias. Ia e voltava do clube até a casa do técnico, onde morava, a pé. Apesar de ter se tornado um “herói nacional”, continuava sem dinheiro nem pegar o bonde, dependia do pai para tudo. 

“Quem me acompanhava era a Mariângela. Ela cronometrava tudo. Eu tinha que dar 10 tiros de 25m, depois de fazer dois, três mil metros. Aí eu ficava cansado e ela dizia: ‘Agora um tiro para mim, outro para o Hirano, outro para a minha mãe e outro para não sei quem...’. Isso era um incentivo para a superação”, enfatiza ele. “Hoje em dia a turma treina, entra numa piscina de gelo e sai sem ácido lático (nos músculos). No nosso tempo, ficava tudo duro, começava a arrebentar os músculos. Eu tinha que superar tudo isso”, resigna-se. 

“Vai na água suja mesmo” 

Manoel e Hirano viajaram de Santos para o Rio de Janeiro de carro. Em 20 de setembro de 1961, quando o nadador chegou ao Clube de Regatas Guanabara, em Botafogo, que abrigava a primeira piscina olímpica do Brasil, não havia ninguém, além dos cronometristas, para testemunhar a quebra do recorde.  

Quando caiu na água para o aquecimento, ainda sem óculos, o medalhista olímpico teve uma surpresa desagradável: a água estava tão suja que era impossível ver o fundo da piscina. “Eu reclamei com o Hirano, e ele me disse: ‘“E daí? Não vai botar defeito na água. Ela está suja e vai ser suja. Não se faça de vítima. Você tem que superar isso!’ O que eu ia fazer, virar as costas e ir embora?”, indaga.    

Os jornais haviam publicado a notícia sobre a tentativa de quebra do recorde mundial. Quando voltou à piscina, depois de uma sessão de massagem feita pelo técnico, Manoel novamente se surpreendeu, dessa vez de maneira positiva. Havia três mil pessoas presentes para aplaudir a sua conquista. “Até o Braguinha –Antônio Carlos de Almeida Braga, empresário do ramo financeiro, que foi um grande incentivador do esporte brasileiro– estava lá. Eu tinha a responsabilidade de bater o recorde”, comenta. 

O mais rápido do mundo 

Na segunda das suas três tentativas diante do trio de cronometristas oficiais formado por Júlio Delamare, Maurício Beckenn e Ruben Dinardi de Araújo, Manoel marcou 53s6.  O feito foi confirmado com tiros de festim disparados por Delamare. A reação da torcida foi imediata, os aplausos duraram cerca de 10 minutos.  

“Minha expectativa era ter trazido a medalha de ouro dos Jogos Olímpicos em Roma, tanto é que um ano depois eu bati o recorde mundial. O campeão dos Jogos marcou 55s2, e eu, 53s6, um segundo e meio abaixo. E muito tempo em natação, é um corpo”, frisa.  

 “Manoel foi e é um dos maiores nomes da natação nacional. Os únicos brasileiros que têm medalha olímpica mais recorde mundial em prova olímpica são Manoel dos Santos, Ricardo Prado e César Cielo. Se ele tivesse patrocínio e pudesse continuar nadando após 1961, poderia tentar a medalha de ouro em Tóquio 1964. Infelizmente isso não aconteceu”, analisa Renato Cordani. 

Já como recordista mundial, Manoel teve a terceira e mais emocionante surpresa do dia: seu pai, que havia dito que não estaria presente, apareceu entre os torcedores. “Eu não queria que ele fosse, mas ele foi. A responsabilidade seria maior nadando na presença do meu pai”, justifica.  

“Bati o recorde e acabou! Depois do recorde, eu decidi: não nado mais. É muto cansativo treinar sozinho. Se é uma equipe, um ajuda o outro, incentiva. Sozinho é uma superação danada!”. 

O recorde mundial do brasileiro durou três anos e foi batido pelo francês Alain Gottvalles, em 14 de outubro de 1964. A marca permaneceu por 10 anos como recorde sul-americano.  

Professor do Rei 

Manoel dos Santos se orgulha ao lembrar que foi eleito o segundo melhor atleta do ano de 1961 numa enquete feita com 52 jornalistas de 26 nações por um jornal sueco.  

“O Pelé  - que já era campeão mundial de futebol - ficou em sétimo. O primeiro foi o Valery Brumel, um russo recordista mundial do salto em altura. Para você ver a importância de bater um recorde mundial. Esse reconhecimento foi o resultado de um programa possível de fazer. Eu tenho um recorte de jornal disso. A Mariângela colecionava tudo”, informa.  

E por falar em Pelé, Maneco foi o responsável por ensinar o Rei do Futebol a nadar. “Ele precisava nadar 50m para entrar na faculdade de Educação Física. O meu cunhado, na época, conhecia o Pelé e nós fomos para o Santa Cecília ensiná-lo. Ele aprendeu rápido porque tinha jeito, foram umas quatro ou cinco aulas”, detalha. 

“Ele tinha um problema: não dobrava o tornozelo, que era duro por causa do futebol. Eu disse que ele tinha que fazer igual bicicleta, só ensinei a posição para ele. Ele já era muito conhecido. A turma perseguia o Pelé. Ele chegava na piscina e, três minutos depois, apareciam 50, 100 repórteres tirando fotografia”, exagera.  


Frente a frente com Tarzan

Em 1961, quando esteve em Los Angeles para o Campeonato Norte-americano de natação, Manoel dos Santos finalmente conheceu o supercampeão Johnny Weissmuler, ator de Tarzan, que o inspirou no início da carreira. “Mas ele já estava decadente. Passei em frente da casa onde ele morava. Tiramos uma foto juntos”, lembra.  

Sem grana para casar 

A proibição de patrocínio ao esporte, que caracterizava o amadorismo nos anos 1960, fez com que Manoel encerrasse a carreira de forma precoce em 1962, logo após o Campeonato Sul-americano de Buenos Aires.  

“Eu parei de competir porque não ganhava nada. Já estava namorando havia três ou quatro e precisava trabalhar. Eu tinha vergonha de pedir dinheiro para o meu pai para namorar”, queixa-se. “Eu era tão duro, que logo em seguida dos Jogos Olímpicos quando fui receber o título de honorário do EC Pinheiros, quem pagou o meu terno foi o clube. Eu não tinha dinheiro, não tinha nada”.  

Coincidências olímpicas 

Questionado sobre a influência dos seus feitos para as conquistas olímpicas dos nadadores brasileiros que vieram depois, Maneco afirma: “Eu acho que tive alguma influência sim, porque eles tiveram um exemplo para seguir. O Pradinho aprendeu a nadar numa piscina do Tênis Clube de Andradina, onde o meu pai era o presidente. Eu tenho um monte de coincidências com ele”, conta.  

Ricardo Prado, prata nos 400m medley nos Jogos Olímpicos Los Angeles 1984, é medalhista olímpico e recordista mundial assim como Manoel. Além disso, os dois vieram de Andradina, onde os pais de Pradinho, ao chegarem do Sul, moraram num hotel de propriedade do pai de Maneco. Concidentemente, os dois entraram juntos para o Hall da Fama do COB.  

“Para mim, o Manoel sempre foi uma grande referência. Eu ouvia o nome dele na minha casa desde quando eu era bem pequenininho, como um grande nadador, como um medalhista olímpico e como um cara de Andradina, uma cidade de 50 mil habitantes, lá longe no interior de São Paulo, quase Mato Grosso do Sul, que pode dizer que teve dois medalhistas olímpicos. Ele é um grande exemplo, que mostra um pouquinho da garra do andradinense”, declara Ricardo Prado. 

Já Gustavo Borges, ganhador de quatro medalhas olímpicas, destaca o fato de Manoel dos Santos e ele terem competido nas mesmas provas. “Ele teve uma interferência muito grande na natação brasileira, com toda a sua presença, com todos os seus resultados e, especialmente, na minha vida. Sou muito amigo dos filhos do Manoel e nadei as mesmas provas que ele. Ele é uma referência de velocista para o Brasil e para o mundo. Sempre teve uma participação e resultados extraordinários”, elogia Borges.  

Sempre na piscina 

Depois de encerrar a carreira, Manoel dos Santos começou a trabalhar no ramo madeireiro com o pai. No início dos anos 80, com a ajuda do pai e da sogra, montou uma academia de natação em São Paulo. 

“Quando uma criança aprende a nadar, sou eu quem ganha a medalha, não a criança. Ela aprende uma vez só e nunca mais desaprende, como andar de bicicleta. Quem aprende a nadar aprende a aplicar a força. E tudo fica mais fácil em qualquer outro esporte quando você aprende a aplicar a força”, ensina.  

Hall da Fama 

O medalhista de bronze em Roma 1964 figura no Hall da Fama da Natação Brasileira desde 2014. Para ele, fazer parte do Hall da Fama do COB é um reconhecimento.  

“As dificuldades trazem as facilidades. Tudo foi difícil para mim. Eu era raquítico, competia com os outros que eram fortes e passei a ser forte também, porque o esporte me fez forte. Nada foi fácil para mim. Eu não ganhei a medalha, eu conquistei a medalha! A prova não veio na bandeja, eu precisei cavocar cada prova, cada competição. E as dificuldades continuaram como empresário. Mas aprendi que é preciso superar sempre”, conclui.  

 

 

 

 

 

 
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