Carregando...

Zé Roberto Guimarães

MODALIDADE

Vôlei

DATA E LOCAL DE NASCIMENTO

31/07/1954 | Quintana, SP

JOGOS OLÍMPICOS

1976 |

CONQUISTAS

4

Medalhas de Ouro

Jogos Olímpicos Barcelona 1992 Jogos Olímpicos Pequim 2008 Jogos Pan-Americanos Guadalajara 2011 Jogos Olímpicos Londres 2012

2

Medalhas de Prata

Jogos Pan-Americanos Rio de Janeiro 2007 Jogos Olímpicos Tóquio 2021

Biografia

O técnico que abriu o caminho do ouro para o vôlei masculino e feminino

Disputar uma edição dos Jogos Olímpicos é o sonho de qualquer atleta. Subir no degrau mais alto do pódio, parece utopia para muitos. Tornar-se técnico passa pela cabeça de alguns poucos. Porém, ser um dos maiores técnicos do esporte olímpico brasileiro é um feito difícil de prever, até para quem chegou lá.  

“Para mim ser convocado para os Jogos Olímpicos era um sonho a ser realizado, eu investi tudo o que eu podia naquela edição porque não sabia se teria outra chance, até por causa da altura... Consegui estar entre os 12 em Montreal e o meu sentimento era de que não teria mais nenhuma oportunidade”. 
A declaração revela os pensamentos do jovem José Roberto Guimarães, que estreou em competições olímpicas em Montreal 1976 aos 22 anos. Bom com a bola nas mãos, o levantador demostrou total falta de habilidade para prever o próprio futuro. Naquela época, ele nem podia imaginar os caminhos que ainda trilharia no voleibol. Montreal ficou longe de ser sua única participação olímpica. Como treinador, ele ainda estaria à frente de seleções brasileiras masculina e feminina em mais seis Jogos, entrando para a história com três medalhas de ouro, integrando a lista dos maiores entre os grandes.   
 
“Você entra na Vila Olímpica, vê os prédios, toda aquela movimentação, aquele monte de atleta de elite, os melhores do mundo e você está ali. Eu pensava: 'Gente, eu estou aqui! Como eu consegui?' Aquilo era a realização de um sonho. Eu me beliscava. Será que sou eu? Será que é possível? Será que eu realmente consegui essa proeza?”, pensava ele, sem saber que ainda seria o autor de muitas outras proezas. 
 

Futebol no DNA 

Nascido em Quintana, no interior paulista, em 31 de julho de 1954, Zé Roberto cresceu respirando a paixão pelo futebol. O pai, Lauro Pereira Guimarães, jogou pelo time profissional do MAC, de Marília, e só não aceitou o convite para jogar na Ponte Preta porque a esposa, dona Bethe, o impediu. Um dos irmãos, Spencer, jogou no Corinthians.  “Lá em casa só se falava de futebol, a gente vivia futebol”, conta.  
 
Aos seis anos, José Roberto se mudou com a família para a zona leste da capital paulista. Aos 12, foi morar em Santo André e iniciou sua longa e bem-sucedida história de amor com o voleibol teve início. 
 
 “Olha como são as coisas. Eu tive a sorte de estudar num colégio de periferia em Santo André, na Vila Pires, onde o meu professor de Educação Física, Valderbi Romani, era técnico do time da cidade, o Randi Esporte Clube. Posteriormente, ele viria a ser o técnico da seleção olímpica de 1972. Mas eu não queria saber de jogar vôlei. Eu gostava mesmo era de futebol”, lembra.  
 
O destino teve que usar uma paixão adolescente como isca para fazer com que o coração de Zé Roberto começasse a bater mais forte pelo voleibol. 
“Eu me apaixonei por uma jogadora de vôlei do time da escola e comecei a namorar com ela. Passei a assistir aos treinos, a catar bola e a dar os meus primeiros toques. Um amigo me viu tocando na bola e falou para eu fazer um teste no time da cidade. Nesse teste, conheci meu primeiro treinador, o Lázaro de Azevedo Pinto, que também era o técnico da seleção das categorias de base. Esse cara foi quem me ensinou a amar o esporte, a gostar do que eu fazia. Ele foi com a minha cara e, no primeiro treino, já falou que iria me inscrever no Campeonato Paulista. Um mês depois, já estava disputando o meu primeiro jogo com a camisa do time. Dois meses mais tarde, já jogava na categoria de cima. Ele fez com que eu me apaixonasse de tal jeito pelo vôlei que me levava para todas as competições. Ele me colocou debaixo do braço e saiu comigo pelo mundo, me dando força, me ajudando. Eu não fazia a menor ideia de que eu tinha talento para o vôlei”, relata. 

Levantadores amigos 

José Roberto Guimarães foi convocado pela primeira vez para a seleção paulista, aos 14 anos. Ali, conquistou uma amizade que perdura por mais de 50 anos com o também levantador Wiliam Carvalho, capitão da "Geração de Prata", com quem também jogaria, anos mais tarde, no time de Santo André e na seleção brasileira. 
 
 “Nós éramos adversários no clube e, depois, jogamos juntos por muitos anos. Nossa primeira convocação para a seleção brasileira juntos foi na juvenil. Em 1972, logo após Munique, fomos convocados para a seleção adulta. O Zé Roberto era um jogador sensacional. Eu já era um jogador baixo, e ele, que era mais baixo do que eu, tinha que compensar tudo na habilidade, na força de vontade, e isso não lhe faltava. Ele defendia demais, levantava demais; rapidamente pegava o conceito do jogo do time adversário, tinha uma liderança muito grande, a gente se entendia perfeitamente”, descreve William. 
 
“Naquela época o vôlei era amadorismo puro. A gente tinha que ganhar a nossa grana, para jogar. De vez em quando aparecia uma ajudinha de custo, mas era muito pequena”, recorda Zé Roberto, cujos ídolos eram Antônio Carlos Moreno e Décio Cataruzzi, seus companheiros de time, além dos jogadores que estiveram com ele nos Jogos de Montreal, como Bernard Rajzman e Bebeto de Freitas.  
 

Pai, quero ser técnico!  

A liderança nas quadras – tornou-se capitão na segunda convocação para seleção paulista - e a convivência com treinadores apaixonados pelo esporte levaram Zé Roberto a optar pela Faculdade Educação Física.  
 
“Quando eu estava no colegial, meus pais queriam que eu fizesse Medicina ou Engenharia, que eram as profissões do momento. Eu já tinha na minha cabeça o que ia fazer, queria ser um professor de Educação Física e me tonar técnico no futuro. Quando eu comecei a conviver com o meu técnico, quando vi os passos que o Valderbi Romani seguiu como treinador da seleção brasileira, quando comecei a conviver com os técnicos que foram da seleção paulista, da seleção brasileira juvenil, comecei a ver um outro mundo. As coisas começaram a fazer um outro sentido na minha cabeça. Passei a vislumbrar uma outra realidade. Foi a maior decepção para os meus pais quando eu disse que queria estudar Educação Física”, compartilha.  
 

Aprendendo com o melhor  

Depois de 21 anos como jogador, quando defendeu vários clubes brasileiros e o Marcolin, na Itália, aos 34 anos, José Roberto encerrou a carreira, mas não abandonou as quadras. Em 1988, surgiu o convite para atuar como assistente técnico de Bebeto de Freitas na seleção brasileira masculina adulta. 
 
“Era a minha chance de trabalhar com um dos maiores técnicos do mundo. Eu só queria aprender. E essa experiência, o fato de estar ali, podendo ouvi-lo, no café da manhã, no almoço e no jantar, nos treinamentos...  Eu só ficava com a mão no queixo, ouvindo o Bebeto e o Jorge Barros falando e tentando absorver. Eu pensava se um dia eu iria saber de voleibol como eles sabiam, se conseguiria montar um planejamento e escrever como eles. Era muito distante o mundo que eles estavam vivendo. Eu tinha muita vontade de aprender, de estar ali, mas não desejava estar no lugar deles. Estar ali com eles aprendendo era o máximo. Foram dois anos de aprendizado”, detalha. 

Vencendo com as meninas 

Depois de disputar os Campeonatos Sul-americano e Mundial como assistente técnico de Bebeto de Freitas, no masculino adulto, Zé Roberto assumiu as seleções infanto e juvenil femininas em 1991. 

“A minha seleção juvenil tinha muitas jogadoras que foram da seleção principal com o Bernardo depois. Eu acabei ficando naquele ano com as duas seleções e nós fomos vice-campeões mundiais nas duas categorias, nós perdemos a final da sub-17 para a Coreia e da sub-19 para a Rússia, mas foi um trabalho legal”, avalia. 
 

Técnico da seleção brasileira, eu?  

Em 1992, José Roberto Guimarães foi o nome escolhido por Carlos Arthur Nuzman, então presidente da Confederação Brasileira de Vôlei (CBV),  para comandar a equipe masculina nos Jogos Olímpicos de Barcelona. Mesmo tendo trabalhado com jogadores como Tande, Marcelo Negrão, Maurício e Carlão na época do Sul-americano e do Mundial, quando era assistente, Zé ficou na dúvida sobre aceitar ou não o convite. Afinal, ele nunca havia atuado como técnico de uma seleção adulta e a sua trajetória estava sendo construída nas seleções de base femininas. Não houve espaço para comemorações. 
 
“Representar o meu país, representar o meu povo é uma coisa que sempre me marcou muito. Depois de disputar os Jogos Montreal 1976, eu falei que esse era o meu caminho, que queria continuar vivendo isso. Essas são as emoções que eu quero para mim, mas nunca imaginei que seria técnico da seleção brasileira”, confessa. “Diante do convite, fiquei titubeando, eu não peguei de primeira, não. Mas o Nuzman falou: ‘Eu te ajudo, vamos lá!’ E foi assim que eu comecei, foi uma epopeia”.  

Pouca idade e desconfiança  

José Roberto compôs a nova comissão técnica com Sami Mehlinsky, Marcos Miranda, Júlio César Lanzelotti, o Julinho; Dr. Matias; Dr. Sérgio Xavier e Cacá Bizzocchi, sendo que esse último não viajou para Barcelona. Na visão dele, a maior dificuldade ao chegar como o novo técnico da seleção masculina foi a falta de confiança dos jogadores.  

“Sabe quando você percebe nitidamente que os jogadores não confiam em você? Eu me senti assim. Lógico, eu estava substituindo nada mais, nada menos do que um dos melhores treinadores do mundo. A confiança que eles tinham no Bebeto, o que o Bebeto passava, o que o Bebeto era, o que o Bebeto tinha, era uma coisa muito forte. E eu não tinha experiência, a única coisa que eu tinha era vontade de trabalhar, a vontade de fazer, a paixão, o amor pelo o que eu estava fazendo. E foi isso que eu passei para eles”, diz, apesar de entre ele e Bebeto a seleção de sido treinada sem sucesso por Josenildo Carvalho 
 
“A chegada do Zé como técnico do grupo foi um pouco conturbada, porque foi uma aposta. Ele era muito jovem, apenas 38 anos. Em 1991, o técnico era o Josenildo de Carvalho e nós não estávamos com resultados bons. Decidiram mudar e apostaram no Zé Roberto. Foi a aposta mais acertada que o voleibol poderia ter feito”, divide o levantador Maurício Lima, campeão olímpico em Barcelona 1992 e Atenas 2004.  
 

O “baixinho” comprou a briga e ganhou o time 

Segundo José Roberto, tudo mudou numa partida contra Cuba pela Liga Mundial, no Ibirapuera. O Brasil estava na frente, no quinto set, quando Diago, capitão cubano, teve uma atitude anti-desportiva, puxando a rede para simular um toque do brasileiro Carlão. Zé Roberto decidiu invadir a quadra e comprou a briga com o levantador cubano.  

“Esse momento foi de muita união, todo mundo foi lá e na hora a gente falou: ‘Na porrada a gente vai perder também, então vamos nos juntar aqui para ganhar deles na bola’. Foi a atitude que o Zé teve de enfrentar o cubano 40 centímetros mais alto que nos encheu de moral”, narra o bicampeão olímpico Giovane Gávio. 
 
 “Havia oito anos que o Brasil não ganhava de Cuba. Vencíamos por 11 a 8 e tomamos dois pontos por erros de arbitragem: o juiz deu mão na rede do Carlão e cartão vermelho para mim. Cuba vai a 10. O time inteiro sofreu um trauma com aquela situação, mas em vez de ficar para baixo, eles se inflamaram de tal forma... Eu nunca vi o Giovane saltar tanto na vida quanto na bola seguinte, com tanta vontade, com tanta raiva, com tanta convicção de botar aquela bola no chão. E a cada ponto que a gente fazia era uma vibração. Quando fechamos o jogo, você via todos os jogadores correndo, pulando! Percebemos que com aquela alegria podíamos ganhar de qualquer time”, emociona-se José Roberto.  
 

Unidos e sem grandes expectativas 

Um técnico jovem dirigindo um time jovem chegou aos Jogos Olímpicos Barcelona 1992 sem grandes pretensões nem expectativas. “Eu só não queria passar vergonha, não classificar e voltar para casa mal”, relembra Zé Roberto. 

Dentro da quadra, o esquema foi colocar os quatro atacantes no jogo.  “Era um pecado deixar um deles no banco. Tinha que arrumar um esquema para todos jogarem”, explica. 
 
 “Ele conseguiu achar lugar para o Carlão, para o Tande, para o Giovane e para o Marcelo Negrão numa mesma equipe. O grande gênio, o grande mentor, o grande estrategista de tudo isso foi o Zé Roberto. Assombramos o mundo jogando numa velocidade muito grande”, analisa Maurício.  
“As combinações de ataque cresceram muito. Maurício tinha várias opções, aquela questão de ter duas primeiras bolas, com o central e o Marcelo ou o central, Paulão e Marcelo ou Paulão e Carlão, ou Marcelo e Carlão. Isso surpreendeu bastante os adversários também. Essa formação diferente que ele criou, revolucionou e foi determinante para o meu sucesso. Ele me deu essa oportunidade e eu vou ser sempre muito grato a ele”, emenda Giovane. 
 
Fora da quadra, a estratégia era manter o grupo unido.  
 
“Como nós não éramos considerados favoritos, não éramos nada, ninguém ligou para a gente. Nós éramos muito jovens e ninguém se atinou para aquele time, ignorando o que tínhamos feito na Liga Mundial, apesar do quinto lugar. Estávamos vivendo um momento entre nós muito forte de amizade, de comprometimento e era nítido isso”, destaca José Roberto, lembrando que o grupo criou uma “caixinha” para juntar as multas pagas pelos que se atrasavam para os compromissos conjuntos. Ele diz que os jogadores reclamavam quando ele dava folga e que até nas folgas as atividades eram realizadas em grupo.     
 

O ouro que ninguém esperava 

O Brasil estreou vencendo a Coreia, a Equipe Unificada (CEI), a Holanda e Cuba na fase eliminatória, perdendo apenas um set para CEI e outro para Cuba. Nas quartas-de-final, a equipe brasileira passou incólume pelo Japão.  
 
“Estávamos entre os quatro primeiros dos Jogos Olímpicos. Para gente já era a glória! Vamos cruzar com os carecas, os Estados Unidos, e era o jogo mais complicado, sempre foi. Tinham dois jogos que eu temia muito nos Jogos Olímpicos, porque são jogos que o Brasil sempre sofreu, por tradição. Coreia, que sempre nos criou problema, e Estados Unidos”, conta Zé Roberto, que fez uma referência ao fato de todos os jogadores americanos terem raspado a cabeça num gesto de protesto que ocorrera no jogo anterior envolvendo o atacante Samuelson, que não tinha cabelo.  
 
Apesar de começar perdendo, o Brasil venceu a semifinal por 3 a 1.  
 
Como em Los Angeles 1984, o vôlei masculino brasileiro estava classificado para a final olímpica. O desafio final seria contra a Holanda. 
 
 “A noite foi terrível porque eu não consegui dormir”, declara o técnico, que ficou conversando com o também insone Tande por mais de uma hora,durante a madrugada.  “Eu tive muito medo porque tínhamos batido na trave algumas vezes. Sofri muito com essa situação da prata, porque nós torcemos muito no Mundial de 82, nos Jogos de 84, e a gente viu o que eles sofreram. Apesar de terem chegado a uma final olímpica, não ganharam a medalha de ouro, saíram vencedores, orgulhosos do feito, mas faltou aquela coisa, um passo a mais. Será que vai acontecer a mesma coisa?”, indagava.  

Aquele “time de moleques”, como diz o técnico, foi para a final contra a Holanda sem medo. Os holandeses tinham eliminado a Itália, a seleção que havia ganhado o Mundial e a Liga Mundial, a equipe e os jogadores mais badalados do momento. O técnico adversário não poupou provocações, classificando a derrota no primeiro jogo como “um acaso”. Sem sufoco, sem frio na barriga, na manhã ensolarada do verão catalão, o Brasil venceu por 3 a 0, com 15 a 5 no terceiro set. Uma vitória histórica. O primeiro ouro olímpico do vôlei brasileiro.  

“A grande qualidade do Zé foi fazer tudo sempre pensando no grupo, todos juntos sempre, sem ter estrelismo e vibrando com cada jogada. Ele é mais que um técnico, é um líder, um pai, um amigo”, enfatiza Marcelo Negrão, autor do saque que decidiu a partida contra a Holanda.

Gratidão ao grande mentor 

O primeiro pensamento do técnico imediatamente após tornar-se campeão olímpico teve como foco Bebeto de Freitas, o técnico da "Geração de Prata", seu grande mentor.  

“Na minha cabeça passou um filminho de tudo aquilo que a gente tinha vivido durante os anos com o Bebeto, os papos que eu consegui ter com ele durante os Jogos Olímpicos por telefone ou depois dos jogos. Eu ia correndo rapidamente falar com ele, que participou das transmissões. Eu dava uma fugida e ia lá perguntar o que ele tinha achado, o que podíamos melhorar. Eu sempre queria a opinião dele. E ele dizia: 'Moleque, está no caminho, vambora! Mantém isso aí que está bom. Segura esses moleques.' Ele sempre me dava uma palavra de ajuda, de alguma coisa importante e eu sempre corria para encontrá-lo”, frisa Zé Roberto. “O time estava muito bem preparado. Ali podia vir Itália, podia vir Holanda, podia vir Rússia, podia vir quem fosse. Naquele momento, ninguém ganharia da gente, ninguém. Do jeito que o time estava jogando, ninguém”, emenda.  

A bola que nunca caiu 

O são-paulino José Roberto Guimarães realizou seu sonho de trabalhar no futebol ao atuar como dirigente da HMTF (Hicks, Muse, Tate & Furst Incorporated), empresa que realizou uma parceria com o Corinthians. A experiência durou dois anos. Depois disso, ele voltou a atuar como técnico de uma equipe feminina, comandando o BCN/Osasco. A proposta o atraiu também porque havia um trabalho com as equipes de base. “Na nossa base tinha jogadoras muito importantes, como Jaqueline, Mari, Paula Pequeno”, diz. 

 Em 2003, ele assumiu a seleção brasileira feminina adulta e, em Atenas 2004, sofreu a derrota mais marcante da sua carreira: o time perdeu, de virada, para a Rússia na semifinal, por 3 a 2, após estar à frente por 24 a 19 e desperdiçar cinco match points.  

“Atenas 2004 foi devastadora. A nossa seleção era muito boa. Tivemos tudo na mão para vencer aquele jogo. Mas esporte é assim. Se jogássemos aquele jogo dez vezes, teríamos provavelmente ganhado oito. Mas aquele dia não era para dar certo”, resigna-se a bicampeã olímpica Fabiana Claudino. 

 A equipe ficou muito abalada e não conseguiu se recuperar para a disputa do bronze contra Cuba, ficando em quarto lugar.  

“No livro ‘O andar do bêbado – Como o acaso determina nossas vidas’, o autor Leonard Mlodinow fala que se alguém jogar mil vezes uma moeda para cima, ela vai cair, pelo menos três vezes, numa sequência de sete caras ou sete coroas. Isso para mim, explica o que aconteceu em Atenas. O Zé Roberto não aceitou a derrota, ele entrou num processo de introspecção e foi muito difícil fazer com que ele reagisse. Ele se sentiu responsável e ele não foi responsável”, explica Cacá Bizzocchi, assistente técnico de Zé Roberto nos Jogos 2004. “O que aconteceu com a Rússia já tinha acontecido com o Brasil de maneira bem semelhante durante aquele jogo, só que não em um momento decisivo. A moeda caiu cinco vezes seguidas contra nós. Uma das lições aprendidas é que no esporte acontecem algumas coisas que estão fora do nosso alcance. Tudo o que precisava ser feito naquela situação do jogo contra a Rússia foi feito, só não deu certo. Faltou a moeda cair uma vez na coroa em vez de cara cinco vezes seguidas”, diz.  

Amarelonas 

O fantasma da derrota para a Rússia em Antenas assombrou a seleção brasileira por quatro anos. As jogadoras ficaram todo esse tempo com trauma e com o estigma de “amarelonas”. 

 “Esse estigma continuava porque, mesmo ganhando várias competições, a gente perdia uma ou outra na final. A gente perdeu o Mundial de 2006 para a Rússia por 3 a 2, com 15 a 13, por dois pontos. Vinha aquela coisa: ‘Perderam o Mundial para a Rússia de novo. ‘Bando de amarelonas’. Depois a gente ganhava Grand Prix, ganhava Montreaux, mas, nos Jogos Pan-americanos de 2007, perdemos para Cuba de 3 a 2, com 17 a 15 no tie break. ‘Bando de amarelonas’. A gente tinha 80% de vitórias no nosso currículo, em quatro anos, mas aí tinha uma ou outra derrota pontual, e vinha à tona aquela derrota de Atenas. Até que veio Pequim”, desabafa José Roberto.  

Quatro anos para se recuperar 

“Ele manteve os nossos pés cravados no chão, mostrando que a gente ia ter que trabalhar muito para conseguir fazer diferente nos próximos Jogos. Eu lembro muito bem quando ele voltou de Atenas, reuniu o grupo e na primeira reunião falou: ‘Vocês vão treinar como nenhum time do mundo’. Juro que eu fiquei com muito medo, mas sobrevivemos”, compartilha a bicampeã olímpica Paula Pequeno.  

Maior intercâmbio com as principais equipes do mundo para conhecer melhor as adversárias, um aumento na quantidade de jogos internacionais e uma ênfase especial na parte física para que as jogadoras ficassem mais fortes. Essas eram as principais mudanças a serem implantadas no time com vistas aos Jogos de Pequim. 

 “O entendimento da parte hormonal também foi fundamental para todos nós da comissão técnica. Precisava haver um entendimento maior também da parte psicológica. Essas mudanças precisavam ocorrer para que a gente pensasse em performance”, explica Zé Roberto. “Outra coisa muito importante foi o fato de os três técnicos irem treinar times europeus: eu fui treinar um time na Itália, o Paulo Cocco foi para a Espanha, e o Claudinho, para a Turquia. Eu fiquei três anos na Itália lá e treinei algumas das minhas adversárias, disputamos Champions League da Europa e pude fazer um dossiê completo de muitas jogadoras que iam jogar contra mim em 2008. Assim também fizeram o Paulinho e o Claudinho. Acho que isso ajudou muito na hora dos confrontos. Foi um grande aprendizado”, avalia José Roberto Guimarães.  

Imbatíveis 

Em Pequim, a seleção brasileira feminina estava “voando”. Durante a disputa, em apenas sete sets as adversárias conseguiram marcar mais do que 20 pontos, e o time perdeu apenas um set em toda competição. O Brasil superou Argélia, Rússia, Sérvia, Cazaquistão e Itália, sempre por 3 a 0, na fase de classificação. Nas quartas de final, bateu o Japão, também por 3 a 0, e enfrentou a China na semifinal. 

 “Esse foi o momento decisivo. No primeiro set, a Mari, que havia sido execrada injustamente em Atenas, passou por uma prova muito forte. A China botou 24 a 23, ela recebeu a bola - a China poderia virar -, marcou um ponto extremamente importante e fechamos esse set por 27 a 25. Naquele momento, com 12 mil pessoas no ginásio, com a China na frente, aquela foi uma bola muito decisiva, muito marcante”, avalia Zé Roberto. 

Ao vencer os Estados Unidos, por 3 a 1, na final, o grito de campeão que estava entalado desde Atenas, pode, enfim, ser ecoado. 

 “O time realmente estava pronto, todo mundo estava muito focado, o grupo tinha uma postura muito profissional, muito correta. A gente sabe que os deuses olímpicos não perdoam, até porque é o mundo inteiro batalhando pelo mesmo sonho, quem fizer mais ou a mais vai estar sempre um passinho à frente. E a gente, como o Zé prometeu, treinou mais do que todo mundo. Nossas mentes também se organizaram, de forma que a nossa energia estava completamente apontada para a mesma direção, que era a medalha de ouro, para que a gente curasse tudo aquilo”, lembra a bicampeã olímpica Paula Pequeno, a MVP (Melhor Jogadora) dos Jogos Olímpicos 2008.   

“A gente tinha vivido um ciclo pós-2004 bastante conturbado no início, depois da derrota na semifinal para a Rússia. Aquela derrota acabou nos acompanhando nos ciclos seguintes, as pessoas eram muito desconfiadas, nos criticavam muito, existia um certo desconforto. Mas, ao mesmo tempo, a gente formou um grupo que acabou amadurecendo, se lapidou durante quatro anos e chegou em 2008 pronto para viver o embate que foi aquela edição.  A gente queria muito ganhar aquela medalha de ouro para, enfim, botar o voleibol no lugar que a gente achava que ele merecia e foi o que aconteceu”, detalha a bicampeã olímpica Fabiana Alvim, a Fabizinha, eleita a melhor líbero da competição. 
 “Eram os meus últimos Jogos Olímpicos, tinha muitas coisas em jogo. Criei na minha cabeça a expectativa de que eu não poderia voltar dali sem o ouro. Eu vi o Zé muito mais confiante no grupo. É uma coisa meio de sensação, quando você percebe que o técnico tem o grupo na mão e o grupo confia no técnico. Muitas vezes as palavras não são necessárias, um olhar, uma expressão, palavras positivas do técnico são muito mais importantes do que qualquer outra coisa. Nesse momento sentimos que um poderia confiar no outro e isso foi fundamental”, destaca campeã olímpica Fofão, bronze em Atlanta 1996 e Sydney 2000, que levou o título de melhor levantadora.   

Trajetória diferente 

Depois de entrar para a história como o único técnico campeão olímpico no masculino e no feminino, José Roberto Guimarães queria ser bi com as meninas. “Eu queria ganhar de novo, eu queria viver aquele mesmo sonho”, revela. “Quando você tem uma grande vitória, os grandes problemas começam a aparecer. É um processo normal. As jogadoras começaram a ser assediadas para fazer propaganda, assediadas pela mídia, ficaram mais famosas, faz parte. Os sacrifícios não são os mesmos porque já ganharam. Os planos mudam: elas queriam ter filhos, queriam mudar”, prossegue.  

Derrota inédita, reunião histórica 

Superadas as dificuldades com a composição da equipe, o Brasil chegou aos Jogos Londres 2012 como o time a ser batido, mas o começo da competição foi difícil. 

 “Éramos campeãs olímpicas, tínhamos novamente um grupo forte, agora renovado em muitas posições e com a cobrança de vencer de novo. O favoritismo pesou um pouco, mas sabíamos que a hora que fosse para decidir, estaríamos prontas”, pontua Fabiana Claudino.  

As brasileiras venceram a Turquia, por 3 a 2, na estreia, e perderam os dois jogos seguintes para os Estados Unidos (3 a 1) e para a Coreia (3 a 0). “Nunca tínhamos perdido para a Coreia. Foi o caos! Corremos o risco de eliminação na primeira fase. Tínhamos que ganhar da China e da Sérvia e torcer para os Estados Unidos vencerem todo mundo. Não perderem nenhum jogo”, descreve Zé Roberto. 

E no momento mais difícil da competição, a atuação do técnico foi fundamental para virar a história do time. “Em todos esses anos de convivência, um dos momentos mais duros foi aquela derrota para a Coreia. Fizemos uma reunião duas, três da manhã, para poder tentar achar uma solução juntos, comissão técnica, treinador e atletas. Foi muito emocionante aquilo ali. Foi uma coisa que me marcou bastante”, relata Fabizinha. 

“Fomos para o fundo do poço, não conseguíamos dormir. Ninguém entendia por que nós tínhamos perdido. Acho que quando vamos até o fundo do poço, fica mais fácil falar com as pessoas.  Não tem muito para onde correr. Ou todo mundo se ajuda ou todo mundo sucumbe. E quando a gente encerrou a reunião estava todo mundo chorando de emoção. Eu senti que tinha outro time, para mim era nítido que aquele sentimento que nós tínhamos em 2008 estava ali de volta”, lembra o técnico. 
“Não éramos mais a surpresa, não éramos mais as que perdem em final ou que não sabem decidir títulos. Agora a pressão era outra. Tínhamos que provar que ainda éramos as melhores. Que íamos vencer de novo, sendo que todos queriam nos vencer. Nunca deixamos de acreditar”, expõe Fabiana. 

Bicampeãs, tricampeão