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João do Pulo

MODALIDADE

Atletismo

DATA E LOCAL DE NASCIMENTO

28/05/1954 | Pindamonhangaba, SP

JOGOS OLÍMPICOS

1976 | 1980

CONQUISTAS

7

Medalhas de Ouro

Jogos Pan-Americanos Cidade do México 1975 Jogos Pan-Americanos Cidade do México 1975 Campeonato Mundial de Atletismo Düsseldorf 1977 Campeonato Mundial de Atletismo Montreal 1979 Jogos Pan-Americanos San Juan 1979 Jogos Pan-Americanos San Juan 1979 Campeonato Mundial de Atletismo Roma 1981

2

Medalhas de Bronze

Jogos Olímpicos Montreal 1976 Jogos Olímpicos Moscou 1980

Biografia

João do Pulo, um salto histórico que mudou uma vida



A medalha de ouro no salto em distância já estava no peito, mas João Carlos de Oliveira queria mais quando se dirigia ao Estádio Olímpico para a disputa do salto triplo dos Jogos Pan-americanos Cidade do México 1975. De carona no carro do jornalista Fernando Sandoval, ele ainda era chamado apenas de João Carlos e foi ali, naquele trajeto, pouco antes de entrar para a história do atletismo mundial, em 15 de outubro, que ele virou para sempre o João do Pulo, como ficou eternizado.

 “Quem deu esse apelido para o João foi um atleta de Barretos, o Benedito Rosa Preta, saltador em altura, que estava no carro do Sandoval com a gente. Foi antes do recorde, do pulo”, conta o técnico de João e da equipe brasileira de atletismo, Pedro Henrique Camargo de Toledo, o Pedrão. 

Horas depois, completamente tranquilo e focado, João entrava na pista de competição e, num estilo que era só dele - com a língua enrolada para fora da boca e saltando como quem caminha no ar - aterrissou do voo marcando inacreditáveis 17,89m, um novo recorde mundial. A marca ultrapassou os 17,44 m do soviético Viktor Saneyeve, então recordista; e foi o passaporte para a entrada do atleta de 21 anos no rol dos maiores nomes do atletismo mundial.  Diz-se que nem a trena usada pela organização da prova tinha capacidade de medir um salto tão espetacular e foi necessário um equipamento extra. Aquele pulo mudou a vida do jovem paulista, preto, pobre, alto e franzino para sempre. 

“Foi uma coisa que pegou todo mundo de surpresa, mas não me surpreendeu tanto, pois eu o treinava e sabia como ele estava. E ele estava sobrando”, lembra Pedrão.
O recorde de João do Pulo só viria a ser superado 10 anos depois, pelo americano Willie Banks, com a marca de 17,97m.

“Eu queria o recorde mundial, mas o João Carlos ‘estragou’ a brincadeira. Eu estava a 900km por hora, e o João na velocidade da luz”, analisou, com bom humor, o medalhista olímpico Nelson Prudêncio, em entrevista ao site da Confederação Brasileira de Atletismo, antes da sua morte, em 23 de novembro de 2012. Prudêncio, que era o grande destaque da equipe, ficou em quarto lugar na prova, com 16,85 m. 

Cara a cara com o ídolo

Depois do recorde, João pulava alto, ria, corria, vibrava muito.

“Foi um dia de expectativa enorme, a gente sonhava com um bom resultado, mas dizer que sonhava com o recorde do mundo seria mentir. Eu esperava que ele saltasse acima dos 17 metros”, revela Pedrão. 

Aquele dia seria ainda mais perfeito para o torcedor João, um apaixonado por futebol. Segundo o técnico, a primeira pessoa a cumprimentá-lo pela vitória foi ninguém menos que Pelé, maior ídolo do novo recordista.

“O Pelé estava em companhia do meu amigo Júlio Mazzei. O Júlio levou o Pelé para me ver, mas naquele dia a estrela era o João. Antes do recorde, o João era o atleta do Pedrão; depois do recorde, o Pedrão virou o técnico do João”, constata. 

Pelada na rua e banho de rio

Filho de Paulo Aço, motorneiro da Estrada de Ferro Campos do Jordão, e da dona de casa Maria de Oliveira, João do Pulo nasceu em 28 de maio de 1954, em Pindamonhangaba, interior de São Paulo. Era o quinto filho de uma família de sete irmãos. Aos sete anos, perdeu a mãe. Criado pela avó paterna, dona Maria Clementina, até os 15 ele teve uma infância pobre, mas divertida.

“Nossa infância foi normal, brincando na rua. João, às vezes ia nadar no Rio Paraíba, escondido do meu pai. Travessuras normais de moleque”, recorda a irmã caçula Ana Maria. 

Jogar bola na várzea, com os pés descalços, era uma das atividades preferidas do menino João, que não levava muito jeito no futebol. Ainda criança, ele começou a fazer “bicos” para ajudar em casa. 

“Ajudava numa oficina mecânica, lavava carros, fazia carreto carregando compras da feira”, descreve Ana Maria, lembrando que o irmão também gostava de tocar bumbo no bloco de carnaval Charles Anjo 45.  

O pai era faixa preta de judô, mas João decidiu se aventurar em outros esportes. Depois do vôlei e do basquete, ele começou a treinar atletismo. Mesmo sem sapatilhas, uniforme ou alimentação adequada, sob o comando do professor Amaury Menezes, fez sucesso no salto em altura. Numa competição colegial, despertou a atenção do técnico José Roberto de Vasconcelos, o Zezé, que o levou para a Escola Superior de Educação Física de Cruzeiro, para ser avaliado pelo professor Gonçalves, especialista em atletismo. A partir da avaliação, João passou a se dedicar ao salto em distância e ao salto triplo, em Cruzeiro, e sua carreira começou a deslanchar.

Cidade grande

Durante o serviço militar, João do Pulo mudou-se para São Paulo. Sua primeira medalha como adulto veio nos Jogos Regionais, quando alcançou o ouro no salto triplo, com 14,07m. A grande virada na vida do atleta, porém, viria ao conhecer o técnico Pedro de Toledo. 

“Houve uma empatia imediata. Eu o convidei para vir treinar comigo no Pinheiros, mas ele estava no Exército e o coronel Quirino Carneiro Rennó o levou para competir pelo São Paulo. Lá, ele treinou com o Nélson Pereira, um técnico espetacular. Tempos depois, de tanto que ele insistiu, acabaram o levando para treinar comigo”, conta.

Geneticamente perfeito

Pedrão se encantou com o biótipo de João do Pulo, um atleta geneticamente privilegiado.

“Ele era longilíneo, tinha 1,89m, um corpo forte, mas a estrutura não era enorme, era um cara perfeito. Para mim, ele tinha a melhor condição que um atleta poderia ter. Fisicamente falando, ele era absurdamente espetacular, tinha uma musculatura e uma coordenação muito boa, uma capacidade, uma destreza. Além da velocidade, ele tinha a capacidade de fazer movimentos, de aprender, de assimilar. Era um cara fisicamente talhado para ser campeão. Embora ele tivesse uma séria de coisas a serem trabalhadas, me impressionou por esse porte, pela velocidade”, lembra. 
Das coisas a serem trabalhadas, segundo o técnico, a principal era a disciplina. João tinha problemas para cumprir horários e era um sedutor nato, que treinava melhor quando havia meninas na arquibancada.

“O João era danado, a gente tinha que tomar conta dele. Tem certas coisas que eu acabei exercendo, acredito que até com algum exagero. Não o deixava ir a certos lugares... Eu era mais que um técnico, era um paizão, um amigão”, completa.

Estreante em Jogos Olímpicos

Depois de bater o recorde mundial e conquistar duas medalhas de ouro nos Jogos Pan-americanos do México, João do Pulo chegou aos Jogos Montreal 1976, como um dos maiores nomes da delegação brasileira e a grande estrela do atletismo.  O atleta teve a honra de ser o porta-bandeira do Brasil no desfile de abertura e causava alvoroço por onde passava.

“Ele era um dos grandes nomes do mundo no atletismo. Todo mundo o reverenciava, todo mundo queria saber quem era, porque o recorde dele foi uma coisa assim, estúpida. Ainda hoje é um resultado fenomenal, mas na época era um absurdo. Ele era cultuado, ele era recebido com todas as pompas”, orgulha-se Pedrão.

Dores que limitam

Apesar das expectativas, João do Pulo estava longe da sua melhor forma física e não conseguiu subir ao degrau mais alto do pódio, devido a uma lesão.

“Ao contrário do que costumam dizer, ele não fez cirurgia! Antes da competição em Montreal, apareceu uma dor na coluna, na quinta ou sexta vértebra. Ele tinha uma dor localizada que impedia que ele aterrissasse, se impulsionasse, sem sofrer consequências. A dor era forte. Ficamos tratando três vezes ao dia, quatro vezes ao dia, o dia inteiro... Ele foi morar na minha casa para ficar mais fácil, mas não deu jeito.  Ele competiu assim. A dor já não estava mais num estado tão agudo, mas ainda continuava lá”, conta Pedrão. 

Mesmo com dor, João competiu no salto em distância e ficou em quinto lugar. No salto triplo, fez a terceira melhor marca, conquistou a medalha de bronze, subiu ao pódio e se igualou a Adhemar Ferreira da Silva e Nélson Prudêncio, como recordista mundial e medalhista olímpico no salto triplo. O recorde de Prudêncio, alcançado nos Jogos México 1968, quando a marca mundial foi batida várias vezes durante a competição, durou cinco minutos.

A polêmica de Moscou

Quatro anos mais tarde, no melhor da sua forma física, João embarcou para a União Soviética com o objetivo de conquistar o ouro nos Jogos Olímpicos de Moscou-1980. Seu principal adversário era Viktor Saneyeve, tricampeão olímpico do salto triplo, que competia em casa. 

João do Pulo foi, mais uma vez, o porta-bandeira da delegação brasileira da qual era o principal nome. 

“Ter o João do Pulo na seleção era uma coisa. Era como se fosse a Nadia Comaneci. Ele andava na Vila Olímpica e, atrás dele, iam umas 100 pessoas querendo falar com ele”, relembra o jogador de basquete Oscar Schmidt, que fez sua estreia olímpica em Moscou. 

Pela primeira vez na história uma edição olímpica foi disputada na União Soviética. O mundo ainda respirava os ares da Guerra Fria e os Jogos forma marcados pelo boicote dos Estados Unidos e outra dezena de países, em protesto à invasão soviética ao Afeganistão. A grandiosidade das festas de abertura e encerramento e as polêmicas decisões da arbitragem também chamaram atenção em Moscou 1980. Infelizmente, o recordista mundial do salto triplo se viu envolvido numa grande controvérsia.

Arbitragem

João do Pulo teve dois de seus seis saltos anulados pela arbitragem. Um deles, segundo analistas internacionais, acima de 18m, o que lhe garantiria não só a medalha de ouro olímpica, mas um novo recorde mundial. Após o salto, João chegou a comemorar, mas o árbitro levantou a bandeira vermelha, indicando que ele teria queimado ao pisar na tábua.

“Eu tinha certeza de que a marca, o primeiro lugar fora do Brasil, porque eles não deixaram medir o meu salto, apagaram, não deixaram conferir. Eu tenho a certeza, com toda a convicção, de que eu saltei acima de 17,24m. Deram o primeiro e o segundo lugar para a Rússia e o terceiro para o Brasil, mas eu aceitei esse terceiro com muita mágoa, com toda a certeza de que o primeiro lugar, a medalha de ouro era do Brasil”, declarou João do Pulo, em entrevista da época, divulgada recentemente pela ESPN.

João do Pulo não resistiu à frustração de ter seu salto extraordinário invalidado e chorou copiosamente no local de competição. “Nunca havia chorado por derrotas, mas, naquela tarde, chorei. A festa acabou pra mim”, declarou o atleta à reportagem da Folha de São Paulo, logo depois da competição.

No final, o também soviético Jaak Uudmae ficou com o ouro, com 17,35m. Saneyeve foi prata, com 17,24m; e João do Pulo teve de se contentar com o bronze, com os 17,22m de um dos seus dois saltos confirmados.

“Havia uma referência muito clara para mim: um árbitro da pista sentado numa cadeira, que sempre era filmado durante os saltos da prova do João. Os saltadores caíam sempre antes da cadeira dele, que estava sentado, e o João passava da cadeira quando pulava. Na minha avaliação, ele fez 18,30/18,40m, mas estou muito envolvido emocionalmente, não tenho isenção crítica para avaliar com precisão. Com certeza, o salto do João foi superior aos 17,35m do primeiro colocado”, indigna-se Pedrão ainda hoje, afirmando que aconteceram resultados duvidosos também no arremesso de dardo e lançamento de disco naquele mesmo dia. 

O australiano Ian Campbell, também teve saltos anulados no salto triplo. Seu país apresentou uma contestação formal à IAAF (Federação Internacional de Atletismo), em 2015, pedindo a revisão do resultado, mas até hoje não obteve resposta.

“Ele ficou magoado demais”, relata Ana Maria, irmã de João do Pulo. “Ficou com a sensação de que os órgãos competentes poderiam ter brigado mais por esse título, que afinal não seria só dele, mas do Brasil”. 

Oscar Schmidt também lamenta. “O João era o orgulho do Brasil, era uma pessoa impressionantemente boa. Eu lembro o dia em que ele foi ao nosso treino e a gente falou: João, dá uma enterrada aí! E ele foi e enterrou de costas. O cara era um fenômeno mesmo. Era para ter ganho essa Olimpíada. Pena que depois aconteceu o que aconteceu. João do Pulo era um ídolo da gente, de todos nós”. 

Retratação?

Notícias da época dão conta de que, em 1992, antes dos Jogos Olímpicos de Barcelona, o campeão olímpico Jaak Uudmae e seu técnico, Harry Seinberg, homenagearam João do Pulo com uma réplica da medalha de ouro dos Jogos Moscou 1980. 

O técnico Pedrão diz desconhecer o fato, mas afirma que houve uma retratação por parte dos russos. “Ele – Seinberg - falou para mim, na Espanha, nos Jogos Ibero-americanos, antes dos Jogos Atenas 2004. Ele se confessou. Depois, ele também disse a um técnico amigo meu que cada vez que pegava a carteira dele, que tinha uma foto do João, ele olhava e começava a chorar, porque ele foi parte do roubo”, conta. 

Harry Seinberg nunca confirmou essa versão à Federação Internacional de Atletismo, nem o encontro relatado por João do Pulo à Rede Globo.

Golpe do destino

João do Pulo tentou superar as lembranças de Moscou fazendo o que sabia fazer de melhor: conquistar bons resultados. Na Copa do Mundo de Roma 1981, saltou 17,37m e conquistou a medalha de ouro pela terceira vez. Antes, fora campeão em 1977, na Alemanha, e em 1979, no Canadá. Mal sabia ele que aquele título mundial seria o seu último grande resultado. 

Em 21 de dezembro do mesmo ano, João viajou para Campinas, onde foi paraninfo da formatura de uma turma de Educação Física da PUC-Campinas. No retorno para São Paulo, por volta das duas horas da madrugada, no quilômetro 87,4 da Rodovia Anhanguera, uma Variant amarela invadiu a pista contrária, batendo de frente contra o Passat em que estavam João do Pulo, seu irmão Chicão e o amigo Estilingue. O motorista da Variant morreu na hora. Os três ocupantes do Passat foram levados, num camburão, ao Hospital Irmãos Penteado, que ficava a 10 m do local do acidente. Todos estavam gravemente feridos. 

A perna direita de João foi esmagada e apresentava fraturas expostas. O atleta também sofreu fraturas no crânio e na mandíbula e traumas no tórax. Inicialmente, foi atendido pelo Dr. Carlos Barbieri, à época residente em Neurologia, que não demorou a chamar o Dr. Núbor Facure para socorrê-lo naquela emergência. Até a manhã seguinte, ninguém da equipe médica tinha noção de que a vida de um dos maiores ídolos do esporte nacional estava em suas mãos. 

“Eu não sabia quem era aquele paciente. Atendemos ele, o irmão e um outro parente. Foi tudo muito rápido devido à gravidade. Eu o encaminhei imediatamente para o raio-x, para fazer um estudo do cérebro com uma arteriografia cerebral. Na entrada no hospital, ele foi imediatamente visto pelo ortopedista Dr. Guerra, que tomou as iniciativas de urgência, engessando a perna fraturada”, lembra Dr. Facure, que era o chefe do Departamento de Neurologia e Diretor Clínico do Hospital.

Segundo ele, a vida de João estava em risco, um alto risco. O perigo maior era que ele aspirasse o sangue que se formava na boca devido às fraturas do maxilar. Na pressão do atendimento de emergência, o ortopedista lavou o ferimento da perna e a engessou, o dentista, Dr. Garlipe procedeu a fixação da fratura da mandíbula, e Dr. Facure, junto com Dr. Carlos Barbieri, foi o responsável pelo atendimento neurológico. 

“Ele foi entubado e posto em respiração mecânica assistida nos primeiros dias até se realizar a traqueostomia”, descreve o médico. 

No dia seguinte, a imprensa começou a marcar presença no hospital. “Descobrimos a repercussão daquele atendimento com a chegada de um batalhão de repórteres de todas as emissoras da época. As entrevistas eram múltiplas, três a quatro vezes por dia”, recorda Dr. Facure.

“Queríamos poupar o pulmão dele ao máximo. Então eu, Dr. Barbieri e outro meu residente, Dr. Joacyr Dalógio, ficamos 15 dias praticamente sem deixá-lo dormir para fazer continuamente os exercícios respiratórios”. Cuidados especiais por se tratar de um atleta de alto nível, que dependia da sua capacidade respiratória máxima.

Fim de carreira

Começando por uma cirurgia na mandíbula, em 11 meses de internação, foram realizadas 22 cirurgias, sendo 16 delas na perna. A equipe médica travou duas grandes batalhas.  A primeira para salvar a vida, a segunda para salvar a perna de João do Pulo. As tentativas de revascularização da artéria tibial, com uma série trabalhosa de curativos, feitas pelo cirurgião plástico Dr. Waldemar Assunção, infelizmente, não surtiram o efeito esperado. Diante disso, em abril, os médicos decidiram transferir João para o Hospital das Clínicas, na capital paulista. Em 23 de setembro de 1982, a perna do recordista mundial do salto triplo foi amputada do joelho para baixo. Terminava ali a carreira de um dos 10 melhores triplistas do século 20.

“Venci mais uma batalha na vida, bati mais um recorde, que é sobreviver”, avaliou João, em entrevista à Rede Globo, ao sair do hospital, usando uma prótese, depois de 333 dias de internação.
No período de recuperação, João do Pulo passou cinco meses na casa de Pedro de Toledo, onde foi cuidado pela família do técnico e pela atleta Odete Valentino Guimarães. 

Novas conquistas

Depois do acidente, João estudou Educação Física, fez cursos no exterior e se dedicou à política. Foi eleito Deputado Estadual por São Paulo nas eleições de 1986 e 1990, tentou a reeleição em 1994 e 1998, mas não teve sucesso. Em seus mandatos, dedicou-se à defesa dos direitos das pessoas com deficiência. A lista de histórias de gente ajudada diretamente por ele é imensa. 

Em agosto de 1988, enquanto os grandes nomes do atletismo se preparavam para as disputas dos Jogos Olímpicos de Seul, João do Pulo comemorava uma grande conquista fora das áreas de competição, o nascimento de Thais Evelyn Fonseca de Oliveira, sua primeira filha. 

“Tenho muitas lembranças boas dele. Ele gostava de cozinhar, era muito festeiro, gostava de samba, muito de mulher e de cerveja. Era mulherengo, mas era super família, amava todos os irmãos. Nós nunca moramos juntos, mas eu ia à casa dele com frequência. Ele mandava presente de Natal, de Dia das Crianças. Era uma pessoa muito alegre. Meu pai era muito feliz”, emociona-se a filha, fruto do relacionamento do atleta com Marivânia Fonseca dos Santos. Tahis, apesar de ter treinado atletismo, optou pela dança.

Alegria é a palavra mais usada para definir João do Pulo.
“Ele era muito extrovertido, tudo para ele era motivo de festa, de risada. Negro alto, maravilhoso, cheiroso. Era uma pessoa muito querida. Onde o João estava era alegria, onde o João estava, tinha festa. Foi uma pessoa que não tinha tristeza nele”, descreve Lili Norberto Carrupt, mãe do segundo filho de João, Emanuel. 

Conhecido como Pulinho, Emmanuel Norberto Carrupt de Oliveira, chegou a treinar atletismo por alguns anos, fez parte de uma equipe no Rio de Janeiro, mas desistiu.m “Seria impossível repetir os feitos do pai. Filho de gênio nunca é gênio”, opina o jornalista Milton Neves. 

Como o pai, sua especialidade era o salto triplo. “Eu queria fazer outra coisa na vida, ganhar dinheiro, conhecer o mundo, outras culturas”, diz o caçula de João, que vive há três anos nos Estados Unidos, onde trabalha como cozinheiro. Ele pretende voltar ao Brasil para criar uma ONG voltada à formação de jovens atletas, com o nome de João do Pulo.

Sonho e depressão

A arbitragem em Moscou, as derrotas nas eleições, abandono dos amigos, fracasso nos negócios e a morte do irmão Chicão, vítima de meningite, dez anos após o acidente, foram, aos poucos, minando a alma alegre do João do Pulo, que se deprimiu. 

“Após dois mandatos como deputado, ele saiu do cenário político e isso foi um balde de água fria. Daí para frente, ele só piorou, a depressão foi muito grande e nada que se fizesse levantava seu ânimo”, lamenta a irmã Ana Maria.

O último sonho de João foi disputar os Jogos Paralímpicos Sydney 2000.  “Vai ser um desafio e, se Deus quiser, vamos trazer para o Brasil mais uma medalha de ouro, porque eu não gosto de perder. Eu nasci para ser vitorioso”, planejava ele, em entrevista à Rede Globo. 

Cirrose e hepatite C

Em 1999, João foi internado com confusão mental em consequência da disfunção hepática e ficou um longo período internado. Faleceu em 29 de maio, um dia depois de completar 45 anos. Ao ouvir a palavra cirrose como causa da morte, a imprensa e o público em geral concluíram que João do Pulo “morreu de tanto beber”. “João adorava cerveja, mas estava longe de ser alcoólatra, fiquei muito triste quando isso saiu na mídia”, queixa-se a irmã caçula. 

Pouco ou nenhum destaque foi dado ao fato de o atleta ser portador do vírus de hepatite C, uma doença silenciosa, que só apresenta sintomas em fases tardias. João foi submetido a inúmeras transfusões na época do acidente e pode ter sido contaminado em uma delas, já que vírus HCV só foi descoberto em 1989, muitos anos depois das cirurgias.

“Cirrose é uma complicação clássica da hepatite C, 20% dos infectados caminham para cirrose ou câncer no fígado. A bebida não foi a causa da cirrose e sim a hepatite C, a doença que evoluiu”, explica Dr. Sérgio Cimerman, Coordenador Científico da Sociedade Brasileira de Infectologia e médico do Instituto de Infectologia Emílio Ribas.

Homenagens

Sargento do Exército, João do Pulo foi homenageado em vida com a Ordem do Rio Branco e as medalhas do Pacificador e do Mérito Militar. Em 1987, sua atuação nos Jogos Pan-americanos de 1975, quando estabeleceu um novo recorde para o salto triplo, foi eleita pela Federação Internacional de Atletismo uma das 100 performances mais bonitas do mundo. 

Depois da morte, João do Pulo foi eternizado como nome de centros esportivos em Guarulhos, São José dos Campos, Diadema, além de praças em São Paulo e São José dos Campos. O atleta foi homenageado com um selo postal dos Correios e é o patrono de um projeto das Forças Armadas que visa à reintegração social de pessoas com deficiência. O atleta também tem um busto de bronze no seu túmulo e uma escultura de ferro na entrada de Pindamonhangaba. Pulinho, filho de João, foi um dos condutores da tocha olímpica nos Jogos Rio 2016. 

Homenagens, como o Hall da Fama, mais as reportagens de TV em ocasiões especiais, mantêm João do Pulo vivo na mente e no coração de Júlia Oliveira Fonseca, a neta que nasceu 11 anos depois que ele partiu.

“Você sabia que o João do Pulo é meu avô?”. Essa é uma frase frequente nas conversas da menina com as amigas do colégio e até com desconhecidos, como motoristas de carros de aplicativo. Julinha já foi fera no judô e agora treina futebol no Boca Juniors, em São Paulo. João do Pulo era apaixonado por futebol, quem sabe, a neta que ele nunca conheceu confirme o DNA vencedor da família brilhando nos estádios mundo afora? Só o tempo dirá.

Em outubro de 2020, a conquista do recorde histórico de um dos maiores triplistas do mundo completou 45 anos. O maior tributo que se pode prestar a um atleta humilde e extraordinário como João Carlos de Oliveira é levar sua história adiante. Afinal, como diz o técnico Pedrão, “João do Pulo era o anjo negro saltador, aquela nuvem de fama que a gente podia pôr a mão”. 


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